A vida seguia um ritmo conhecido, quase automático, e ela se perguntava, por vezes, se havia mais além daquela rotina.
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Jornal Clarín Brasil JCB News – Brasil 27/02/25
Rotina
Lin Quintino
Ela olhou para o relógio de pulso. Eram 19h, e ele ainda não tinha chegado. As crianças corriam pela sala, rindo e gritando, alheias ao seu cansaço. A panela no fogão começava a apitar, e a comida no forno exalava um cheiro que a trazia de volta à cozinha.
O dia tinha sido longo. Trabalho, escola das crianças, supermercado, contas para pagar. A vida seguia um ritmo conhecido, quase automático, e ela se perguntava, por vezes, se havia mais além daquela rotina. Mas, então, uma das crianças a puxava pelo braço, pedindo ajuda com a lição de casa, e a pergunta desaparecia no meio da correria diária.
Ele entrou em casa uma hora depois, cansado, o terno amassado, e foi direto ao quarto, sem muita conversa. Sentia o peso do dia, como ela. Os dois sabiam disso, mas, ao mesmo tempo, era como se estivessem vivendo em esferas paralelas. Dividiam o mesmo espaço, os mesmos compromissos, mas a conexão que um dia os unira parecia, agora, uma lembrança distante.
Jantaram em silêncio, com as crianças quebrando o clima aqui e ali com suas histórias da escola. Ele comentou algo sobre o trabalho, ela respondeu com um sorriso cansado, e a conversa morreu logo em seguida. Não havia briga, não havia drama, apenas um desgaste que o tempo, silencioso, tinha trazido para dentro de casa.
Depois que as crianças foram para a cama, eles se sentaram no sofá, cada um em um canto, como de costume. O programa de TV rodava como ruído de fundo, mas a mente de ambos estava distante. Ela olhou para ele, pensou em falar, mas não sabia o que dizer. Ele a olhou de volta, talvez com o mesmo pensamento, mas também não disse nada.
A noite seguiu, como tantas outras, entre dois silêncios que pareciam compreender, sem precisar de palavras, que o amor, um dia vibrante, agora precisava de cuidados que nenhum dos dois sabia mais como oferecer.
Lin Quintino
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Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”