Tia Eunice é quem surpreende quase sempre com um desconcertante ceticismo inesperado.

Jornal Clarín Brasil JCB News – Brasil 03/03/25
MINHA TIA EUNICE
Angeli Rose
Eu não culpo minha tia Eunice por sentir-se tão indignada
no mundo de hoje. Não raro tenho encontrado com ela nos
fins de tarde em casa de mamãe. E depois do lanche leve e
bem servido, sempre um bolo fofo com café fresquinho,
começamos a comentar as notícias do dia ou da semana.
Sei de sua dificuldade para compreender algumas situações
inusitadas – a idade também é um dos fatores que
contribui para o estranhamento, além da resistência de titia
para usar o aparelho de surdez. E nisso ela encontra
parceira convicta, minha mãe. No entanto, a sensação que
tenho algumas vezes é contrária. Tia Eunice é quem
surpreende quase sempre com um desconcertante
ceticismo inesperado.
O fato é que, dia desses, ao ouvir no noticiário sobre o
homem, um japonês, que gastou o equivalente a 75mil
reais numa fantasia de cachorro, segundo a reportagem,
bem realista, titia com o ar blasé comentou “por que não
doou a uma instituição de cuidado com cães? Teria feito o
bem e nenhuma confusão”. E completou: “agora só falta
querer ser adotado com esse olhar carente…” E soltou seu
muxoxo característico das pessoas entediadas.
Aliás, falando em “vida de cachorro”, teve ainda a daquela
escritora que comeu parte das cinzas do marido, depois de
descobrir a vida dupla que ele levava como aficionado por
pornografia. Jéssica Waite, durante os preparativos do
funeral fez a descoberta do gosto excêntrico do falecido,
coisa que nunca desconfiou em anos de casamento. Titia,
com seu senso de humor seco, até meio inglês, não perdeu
tempo em dizer isso é que é uma “comédia da vida
privada”. Mamãe que conhece bem a irmã, mas não ouve
bem, foi logo lembrando a ela o banheiro – “2ª porta à
direita. Você sabe!” – E eu no meio daquilo tudo sem saber
se ria ou chorava pela falta de esperança que as coisas
melhorassem e a certeza de que o pior ainda estaria por
vir.
Mas antes que a situação se agudizasse fui me preparando
para sair, quando titia Eunice saltou do sofá e falou “agora
se danou!” Por instantes a minha distração com o noticiário
me deslocou no tempo e no espaço, entretida que estava
com a busca na memória pela desculpa exata para picar a
mula… Fui tomar ciência da recente notícia responsável
pela indignação de titia que contaminou mamãe. Ambas
estavam com a respiração alterada, os olhos esbugalhados
e eu me senti como se estivesse diante de uma cena de
Pânico 7.
A notícia foi sobre o rapaz de 23 anos que fora engolido por
uma baleia e em segundos cuspido pelo mamífero em alto
mar. Imediatamente me ocorreu o episódio bíblico de Jonas
engolido por um peixe grande, assim como a história do
conto para crianças sobre as conseqüências da
desobediência e que Jonas é salvo da barriga de uma
baleia. É de fato assombroso pensar em tal fato. Titia sem
perder o time dos acontecimentos, exclamou: “- Quem
diria, a fome está tão braba que peixe agora é que come o
homem…”
Depois dessa, preferi levantar do sofá de veludo vermelho e
manta de oncinha sobre ele com a desculpa de ter minhas
obrigações logo cedo, entretanto, com a dúvida recorrente:
A ficção imita a realidade? Ou é a realidade que anda se
alargando até encontrar com a fantasia, isto é, ou o que for
que chamamos de fantasia ou inventado?

Angeli Rose é colunista de jornais digitais, Presidente do INSTITUTO
INTERNACIONAL CULTURA EM MOVIMENTO, fundadora do COLETIVO
MULHERES ARTISTAS, carioca, geminiana. Adora viajar, ler e praia.
Professora de Literatura, pesquisadora há mais de 25 anos. Recebeu
recentemente a Medalha de Reconhecimento Chiquinha Gonzaga da Câmara
Municipal do Rio de Janeiro, além de uma Moção de Aplausos e Louvor da
mesma “casa do povo”. Com alegria, é Embajadora Cultural das feiras virtuais
do livro, organizadas pela Confederación Del Libro Peru,entre outras atividades
e funções que exerce na cena cultural com espírito de colaboração.
@angeliroseescritora // [ http://lattes.cnpq.br/4872899612204008 ]
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






