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Crônica de uma Menina com Nome de Brisa – Por Paulo Siuves

A impunidade, nesse caso, tem nome, endereço, e até festas frequentadas

Crônica de uma Menina com Nome de Brisa


Paulo Siuves

Araceli Cabrera Crespo. O nome flutua como uma pena sobre a memória nacional, leve demais
para o peso do que representa. O nome é curto, doce, quase infantil em sua musicalidade —
como se tivesse sido escolhido para caber em cantigas de roda e cadernos de caligrafia.
Ela tinha oito anos. E o que cabe em oito anos? Cabe o cheiro do uniforme limpo, a alegria boba
do recreio, a mão que segura outra para atravessar a rua, o lápis mordido no canto da boca. Cabe
o mundo todo, visto de baixo pra cima. Araceli era uma criança comum — e isso deveria ter
sido sua maior proteção. Mas foi, tristemente, sua vulnerabilidade.
Era uma menina de traços delicados, cabelos lisos que emolduravam o rosto como moldura de
retrato antigo. A pele, clara e quente como o fim da tarde. Os olhos? Doces, quietos, daqueles
que perguntam antes de falar. E havia nela uma forma de existir que não pedia licença — pedia
cuidado.
Na manhã de 18 de maio de 1973, ela saiu para a escola e nunca mais voltou. E o Espírito Santo
nunca mais foi o mesmo. O Brasil também não. Seu corpo, encontrado dias depois, violentado e
sem vida, foi tratado por alguns com frieza de processo. Mas para muitos — para os que não
adormecem diante da injustiça — Araceli se tornou um ponto de ruptura. Um corte aberto que
sangra até hoje.
Seus algozes nunca foram devidamente punidos. A impunidade, nesse caso, tem nome,
endereço, e até festas frequentadas. A justiça, no entanto, preferiu olhar para o lado. Mas a
memória não. A memória é insistente. Ela mora onde a Justiça se ausenta.
Desde então, todos os anos, o mês de maio se tinge de laranja — não por moda ou calendário,
mas por necessidade. É o laranja da infância exposta, da denúncia que não veio, da ferida aberta.
É o laranja de Araceli. Não o da roupa que vestia, mas o da lembrança que arde.
Fala-se muito em datas simbólicas. Araceli não deveria ser símbolo. Deveria estar viva. Deveria
ter crescido. Deveria ter errado a tabuada, escrito cartas para amigas, beijado pela primeira vez,
feito escolhas ruins, sido banal. Porque crescer é isso — é errar em paz. Mas Araceli não teve
esse direito.
Hoje, seu nome estampa campanhas de conscientização, leis, artigos, palestras. Mas não era isso
que ela sonhava aos oito anos. Certamente sonhava com brinquedos, talvez com uma bicicleta
vermelha. E a nós, que vivemos, cabe fazer com que esse nome — Araceli — nunca mais seja
sinônimo de silêncio.
É preciso repetir com firmeza: o que fizeram com Araceli não foi um caso isolado. Foi um
espelho. Refletiu a indiferença com que tratamos a infância, o machismo que sexualiza corpos
pequenos, o elitismo que absolve os bem-nascidos, a morosidade de um sistema que apenas
registra, sem reagir.
E no entanto, em meio a tudo isso, há uma ternura que resiste. Há quem lembre de Araceli com
flores nas mãos e nó na garganta. Há quem, ao ouvir seu nome, sinta a urgência de proteger
outras meninas — que ainda estão por aí, nas ruas, nas escolas, nas casas. Crianças que brincam
com a própria sombra, sem saber que há sombras maiores que as delas.
Não se trata apenas de lembrar.Trata-se de não esquecer.
De fazer da memória um farol, não um retrato. Porque enquanto Araceli for só lembrança,

outras meninas continuarão a desaparecer em silêncio.
Esta crônica, então, é para ela — não para que a dor se repita, mas para que o tempo aprenda a
proteger, e não apenas – passar.


Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.

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