
Jornal Clarín Brasil JCB News – Brasil 13/07/25
Desajustada às 9h da manhã
Lin Quintino
Acordei com o despertador gritando mais do que eu.
Levantei , sem poesia, sem lirismo, sem café.
Tomei banho com a alma suja. Vesti roupa limpa com pensamento imundo.
E fui.
Fui pra onde? Nem sei.
Talvez pra dentro. Talvez pro lado de fora do sistema.
O ônibus veio lotado de corpos vazios. Gente pendurada em si mesma,
equilibrando sonhos vencidos na ponta do pé.
Uma senhora lia um folheto evangélico.
Um rapaz assistia um vídeo de alguém dançando em cima de um cachorro vestido de Pikachu.
Arte moderna, talvez.
Meu fone de ouvido tocava uma música que falava de amor como se o amor ainda fosse vendável.
Cheguei no ponto, desci. Comprei um pão de queijo a R$ 9,00 e me senti assaltada com recibo.
Sorri pro atendente e ele respondeu com um “bom dia” automático, do tipo que vem com manual de instruções e ausência de alma.
Na calçada, tropecei em um buraco que, segundo a prefeitura, é patrimônio histórico.
No meio da queda, pensei em Clarice, em Mário, em Oswald — todos eles teriam rido.
Mas com estilo.
Pensei em parar.
Mas parar é verbo que não cabe no tempo das máquinas.
O sistema nos quer inteiros — ainda que moídos.
No trabalho, fingi normalidade. Ninguém percebeu.
Acho que fingem também.
Somos todos figurantes no palco do tédio moderno.
Às 15h, o céu escureceu sem aviso prévio.
A nuvem parecia um poema mal-humorado de Drummond.
Pensei em pedir demissão, escrever um livro, fugir pra Paraty.
Mas lembrei que tenho boleto, carnê, e uma planta que morre se eu não voltar.
Voltei.
Às 18h, o ônibus me engoliu de novo.
E fui ruminando até em casa.
A vida segue, descompassada, desencantada,
mas ainda assim… minha.
Me reinvento no caos. Me encontro no ruído.
E amanhã, às 9h, serei desajustada outra vez.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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