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A Sala de Espera do Hospital – Por Lin Quintino

Data de nascimento. Plano de saúde. Tudo vira número. Tudo vira ficha. Até a dor tem protocolo.

A Sala de Espera do Hospital

Lin Quintino

A sala de espera do hospital não tem relógio. Ou talvez tenha, mas não se move. O tempo ali é uma coisa imóvel, como o quadro torto na parede, como a mulher que segura a bolsa contra o peito como se fosse um escudo.

Tem cheiro de cloro e de medo. Tem gente que fala demais. Tem gente que não fala nunca. Um homem folheia a revista de dois anos atrás como se procurasse um mapa. Não há mapas ali. Ninguém sabe de onde veio, nem para onde vai, só sabe que está. Preso. Em pausa.

O ventilador gira no teto, tentando ventilar angústias, mas o ar é espesso. A televisão murmura um programa qualquer, sem som. Talvez para não incomodar a tristeza.

Uma criança chora. Uma enfermeira chama um nome que ninguém atende. Um celular vibra no bolso de alguém que está dormindo com os olhos abertos.

Penso em Kafka. Penso em Drummond. Penso se ainda sou eu, esse corpo sentado numa cadeira de plástico, esperando o próximo capítulo de um livro que ninguém quer ler.

A mulher do balcão mastiga a burocracia com a paciência de uma rocha. Nome completo. Data de nascimento. Plano de saúde. Tudo vira número. Tudo vira ficha. Até a dor tem protocolo.

E ali estamos todos, em espera. Esperando o exame, o resultado, a notícia, a sentença, o alívio. Esperando que alguém diga: “Já passou.” Ou: “Sinto muito.” A sala de espera é um purgatório de azulejos brancos. Ninguém entra o mesmo. Ninguém sai ileso.

Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores

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