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Entre o Amargo e o Doce: A Filosofia do Café – Por Paulo Siuves

“Às vezes, o amargor é um lembrete”

Entre o Amargo e o Doce: A Filosofia do Café

Paulo Siuves

Há quem tome café sem açúcar por disciplina. Outros, por gosto. Alguns, por vaidade. E há os que, como eu, preferem o meio-termo — nem doce demais, nem amargo demais. Um café com menos açúcar, como quem diz: “Eu gosto, mas não me entrego.”

Essa escolha, aparentemente banal, carrega uma filosofia de vida. Não se trata de renunciar ao prazer, mas de evitar o excesso. É o mesmo raciocínio que aplico aos embutidos — salames, mortadelas e companhias que me encantam, mas que aprendi a manter a uma distância respeitosa. Não por moralismo, mas por cuidado. Porque viver bem não é viver sem, e sim viver com consciência.

O café também é um ritual. A xícara da manhã, ainda com o sol nascendo, é um convite à reflexão. A pausa da tarde, um momento para reconectar. Ele não é apenas uma bebida, mas um mapa de nossos dias, marcando pontos de partida e paradas necessárias. Para mim, o café é a promessa de que, em meio à correria, sempre haverá um instante para o respiro. Um tempo para saborear, pensar e, se preciso, recomeçar.

É o oposto do suco, que é pura doçura e não pede nada além de si mesmo. O café, ao contrário, exige consciência: pede que você sinta seu calor, perceba seu amargor, entenda sua complexidade.

A psicologia, como sugere a matéria de Fausto Fagioli Fonseca, vê no café sem açúcar um gesto de autenticidade, autocontrole e tolerância ao desconforto. Concordo em parte, mas me permito ir além: o paladar também é memória. Às vezes, o amargor é um lembrete. Uma punição simbólica. Uma fuga. Um ritual que nos conecta a algo que não se explica, mas se sente.

Meu café, com menos açúcar, é um manifesto silencioso. Ele diz que posso gostar sem me render. Que posso saborear sem me perder. Que posso viver com prazer, mas dentro de limites escolhidos por mim — não impostos. É uma declaração íntima de autonomia, feita sem alarde, entre um gole e outro. Não é uma renúncia ao doce, mas uma escolha consciente de não me deixar adoçar demais pela vida — como quem sabe que o excesso, mesmo do que é bom, pode entorpecer.

Esse café é meu pacto diário com o equilíbrio: lembra-me que o sabor está na nuance, não no exagero. Que o prazer não precisa vir com culpa, e o cuidado não precisa vir com rigidez. É um gesto pequeno, quase invisível, mas que carrega a grandeza de quem aprendeu a viver com intensidade moderada — sem abrir mão do que ama, mas sem se deixar dominar por isso.

E, em sua simplicidade, a xícara de café me lembra uma mulher de presença contida, mas que não passa despercebida. Ela arde nas mãos antes de tocar os lábios, e no primeiro gole já impõe respeito. Sabe ser amarga sem piedade, doce quando quer, e nunca se entrega inteira de uma vez. É daquelas que exigem calma, mas que, a cada gole — ou a cada olhar mais demorado — insinuam camadas escondidas, um segredo quente, quase proibido. Como o café que me ensinou a gostar do amargo, ela me ensinou a desejar o que não se revela logo, o que só se desnuda na paciência da espera.

E talvez seja isso que o café nos entrega em cada xícara: a chance de se reconhecer, não apenas em quem somos, mas em como escolhemos ser. Um gole por vez.

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