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Máquina do Silêncio: Inteligência Artificial e a Obsolescência da Alma – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

A IA não apenas responde. Ela antecipa, molda, condiciona. Quando um algoritmo prevê o que desejamos antes mesmo que o formulemos, não está nos servindo: está nos treinando

Em uma conversa telefônica de cerca de vinte minutos com meu confrade, o escritor, intelectual e autor de diversos livros, além de Doutor “honoris causa”, Paulo Siuves, que se encontra à 500 km de distância de mim, fiz um breve desabafo sobre um incômodo, inimaginável, pelo menos para mim, há uns 20 anos atrás. . Expus minha inquietação diante do advento da Inteligência Artificial e dos efeitos da substituição também artificial do humano, que ela vem provocando de forma cada vez mais intensa.

Minha preocupação surgiu dias atrás, quando me vi distraído testando a habilidade e a capacidade de resposta de uma dessas ferramentas. Sem perceber, já era madrugada e eu ainda conversava com uma IA sobre um episódio ocorrido no Líbano, do qual tive conhecimento na adolescência. O diálogo estava tão envolvente, tão intelectualmente estimulante, que me causava prazer. Era uma conversa de alto nível, e pasmem, muito prazerosa mesmo, porém, com uma máquina.

Foi então que me dei conta: “Estou falando com uma máquina… e estou gostando. E agora?” Mais que depressa desliguei o aparelho e fiquei assustado comigo mesmo. O tão humanista Nilson Apollo, se deliciando em um “bate-papo” com uma máquina. Desde esse dia, comecei a me preocupar com a obsolescência humana, não somente nas atividades fabris, ou intelectuais, mas também, até nisso, na troca (unilateral na verdade), de emoções… Um bate-papo. Daí veio a inquietação, e até uma certa ansiedade, e comecei a conjecturar…

Não há nada espontâneo na ansiedade que nos atravessa. Ela é engenheirada, cultivada, distribuída em escala industrial. A chamada “geração ansiosa” não emerge do acaso, mas da lógica implacável de um sistema que transformou a atenção humana em moeda de troca. Vivemos sob o império da aceleração, onde cada segundo precisa ser monetizado, cada gesto convertido em dado, cada silêncio preenchido por ruído digital. A Inteligência Artificial, nesse cenário, não é uma ferramenta, é uma engrenagem.

A IA não apenas responde. Ela antecipa, molda, condiciona. Quando um algoritmo prevê o que desejamos antes mesmo que o formulemos, não está nos servindo: está nos treinando. A promessa de conveniência esconde um projeto de domesticação cognitiva. A instantaneidade, vendida como progresso, é na verdade uma pedagogia da impaciência. Cada clique reforça o hábito da urgência, cada notificação nos ensina que pensar devagar é perder tempo.

O resultado é uma geração hiperconectada e, paradoxalmente, cada vez mais silenciosa entre si. Não o silêncio fecundo da contemplação, mas o silêncio administrado da linguagem esvaziada. Emojis substituem argumentos. Respostas automáticas ocupam o lugar da escuta. A IA, ao facilitar a comunicação, também a empobrece, não por falha técnica, mas por projeto político. A linguagem, esse território da crítica e da invenção, é reduzida a comandos previsíveis. O pensamento se torna redundante.

Não estamos diante de um desdobramento inevitável da técnica, mas de uma escolha institucional. As plataformas digitais, regidas por conglomerados corporativos, operam sob a lógica do engajamento perpétuo. A arquitetura algorítmica é desenhada para manter corpos e mentes em estado de alerta, prontos para consumir, reagir, validar. A ansiedade não é efeito colateral, é combustível.

A propaganda tecnológica insiste que podemos “usar bem” essas ferramentas. Mas essa é a ilusão central: acreditar que é possível domesticar um sistema que foi projetado para nos domesticar. Aplicativos de meditação, agendas inteligentes, assistentes virtuais, tudo isso são paliativos em um navio que navega rumo ao naufrágio da consciência. O problema não é a interface, é a infraestrutura.

Resistir, portanto, não é apenas desligar o celular ou fazer pausas digitais. É interrogar quem desenha os algoritmos, quem lucra com nossa atenção, quem decide o que vemos, sentimos, desejamos. Em um mundo onde o silêncio e a atenção se tornaram bens escassos, recuperar o tempo lento do pensamento é um gesto radical. Não se trata de nostalgia, mas de insurgência.

A batalha que se anuncia não será entre diferentes modelos de IA, mas entre a humanidade e um sistema que trata a experiência consciente como matéria-prima. Desacelerar, nesse contexto, é mais do que um ato de autocuidado, é uma recusa à lógica que nos transforma em dados. É a afirmação de que ainda somos capazes de pensar por conta própria. E isso, hoje, é revolucionário.

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