Cultura/Lazer Mercados/Negócios

O Primeiro Pensamento do Dia – Por Paulo Siuves

“Lido com realidades densas, histórias partidas, dores que exigem mais experiência do que eu ainda tenho”

Há quem desperte lembrando de compromissos, de e-mails, da pressa. Eu não. Antes mesmo de abrir os olhos, antes de reconhecer o teto ou o silêncio da casa, existe uma única certeza me atravessando: estou vivo. E se acordei, é porque Deus decidiu acender outra vez a pequena centelha elétrica no meu cérebro — esse disparo misterioso que começa tudo. Não é exatamente uma oração; é um pensamento-reflexo, um reconhecimento imediato. Um pacto silencioso entre mim e o alto.

A verdade é que o primeiro pensamento do dia diz muito sobre quem somos. No meu caso, diz mais sobre quem eu tento ser do que sobre quem eu já sou. Porque, ao levantar, ainda meio cego de luz, sei que o mundo me espera com suas exigências, suas pressas, suas dores. Mas ali, naquele instante em que só eu existo – eu, o chuveiro e a consciência despertando devagar – ali é onde reside a parte mais pura do meu caráter. Ali não dá para fingir. Não há plateia, não há máscara. Há só gratidão.

E talvez seja por isso que, quando o dia termina, a sensação que volta para mim é outra: a inquietação. No trabalho, especialmente no GPAM, ainda estou aprendendo. Lido com realidades densas, histórias partidas, dores que exigem mais experiência do que eu ainda tenho. Encerrar o expediente é carregar a impressão de que fiz pouco, de que ainda não domino tudo, de que poderia ter feito mais. É a consciência humana tentando alcançar o tamanho da responsabilidade.

Chego em casa, tiro a roupa, tomo banho. Não é só hábito: é um rito de passagem. A água escorre levando as tensões, mas não apaga a sensação de estar no meio de um caminho que ainda estou entendendo. Depois, sento em algum canto. Não tenho meu whisky diário, mas tenho silêncio. Tenho o direito de descomprimir, de respirar. E então penso nas coisas que me ancoram: meus filhos, meus netos, o riso da Laura fazendo biscoitos com minha esposa; o Lucas brincando com o tio duas vezes mais velho; o vinho compartilhado com minha filha; o filme melodramático que minha esposa escolhe e que eu assisto porque faz sentido para nós.

Curta,compartilhe e siga-nos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *