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2026 –  A Batalha entre a democracia e o caos – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

É fundamental revitalizar o diálogo político e institucional. Lideranças dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, junto com partidos políticos de todas as correntes, precisam publicamente reiterar o compromisso com o processo democrático, condenar a violência política e trabalhar para um ambiente de campanha civilizado.

Enquanto o Brasil se prepara para as próximas eleições presidenciais, marcadas para outubro de 2026, a garantia do governo e das instituições democráticas de que o pleito será realizado conforme o calendário constitucional, apesar dos desafios de segurança pública, polarização política e desconfiança institucional, prepara o terreno para um momento decisivo na jornada democrática do país. Em um momento de profunda divisão ideológica, agitação nas redes sociais e frágil coesão social, a confiança nas eleições parece ser um objetivo a ser conquistado, não um pressuposto. Isso levanta questões cruciais: o Brasil conseguirá realizar eleições credíveis, inclusivas e pacíficas em meio à desinformação, violência política e erosão da confiança nas urnas e no Judiciário? Quais condições devem ser atendidas para que as eleições sejam um exercício de soberania popular e não um mero ritual contestado? Essas questões tocam o cerne da luta do Brasil para conciliar sua robusta tradição eleitoral com as realidades de um cenário político fragmentado e inflamado.

O processo eleitoral brasileiro está intrinsecamente ligado à sua história democrática recente. A redemocratização reacendeu as esperanças de uma renovação política, após décadas de regime autoritário. No entanto, ciclos de crise política, acusações de corrupção e eventos como as eleições de 2022, marcadas por polarização extrema e atos de violência, expuseram obstáculos como a judicialização da política, a vulnerabilidade do processo à desinformação e os riscos à segurança de candidatos e eleitores. Hoje, com a proximidade do próximo pleito, muitos desses desafios permanecem e podem se agravar.

O principal desafio é o ambiente político e de segurança. A determinação constitucional de realizar eleações em todo o país esbarra numa realidade preocupante: a violência política e o crime organizado podem intimidar eleitores e candidatos, especialmente em regiões periféricas e áreas urbanas conflituosas. Aumento de assassinatos políticos, milícias que controlam territórios e a influência de facções criminosas em eleições locais são riscos concretos. As urnas eletrônicas e a logística eleitoral são reconhecidamente eficientes, mas pouco significam se cidadãos temem votar, se candidatos são coagidos ou se comunidades inteiras estão sob o domínio de grupos armados que distorcem a liberdade de escolha.

A polarização extrema e a falta de diálogo também são fatores que contribuem para o problema. A classe política e a sociedade brasileira permanecem profundamente divididas. O debate público, especialmente nas redes sociais, é frequentemente marcado por ódio, fake news e ataques às instituições. Acusações de parcialidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), teorias infundadas sobre fraudes e a deslegitimação prévia de resultados potenciais minam a credibilidade do processo. Sem um pacto mínimo pela democracia e pelas regras do jogo entre as principais forças políticas, as próximas eleições correm o risco de aprofundar as divisões e gerar conflitos pós-eleitorais, independentemente do resultado.

A fragilidade do tecido social e a erosão da confiança pública agravam o cenário. Muitos cidadãos, cansados da crise econômica, violência e escândalos políticos, duvidam que as eleições possam trazer mudanças significativas. O cinismo se espalha à medida que promessas de campanha são sistematicamente quebradas e a violência verbal se normaliza. Em um ambiente de profunda desconfiança, onde parte da população já questiona a lisura do sistema sem provas, a apatia eleitoral ou a reação violenta a derrotas podem minar a legitimidade do processo.

Ainda assim, qualquer sugestão de interrupção ou adiamento do calendário eleitoral é inconstitucional e antidemocrática. O Brasil deve, portanto, encontrar um equilíbrio difícil: respeitar rigidamente o cronograma constitucional e, ao mesmo tempo, garantir que o processo seja tão credível, seguro e transparente a ponto de sua legitimidade ser inquestionável. Esse equilíbrio exigirá esforço coordenado de todas as instituições e atores políticos.

Enfrentar esses desafios exige a adoção de uma série de medidas essenciais. Para começar, o Estado deve priorizar a segurança eleitoral como pré-requisito. Isso implica um planejamento integrado entre o TSE, a Polícia Federal, as polícias estaduais e as Forças Armadas para garantir a segurança de urnas, locais de votação, candidatos e eleitores, especialmente em áreas de risco. A paz pública não pode ser tratada como um problema separado, ela deve ser integrada ao planejamento logístico eleitoral.

É fundamental revitalizar o diálogo político e institucional. Lideranças dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, junto com partidos políticos de todas as correntes, precisam publicamente reiterar o compromisso com o processo democrático, condenar a violência política e trabalhar para um ambiente de campanha civilizado. O TSE, por sua vez, deve intensificar seus esforços de transparência e comunicação. Além da auditoria tradicional das urnas, é preciso uma ofensiva educativa nas redes sociais e na mídia tradicional para explicar o processo, combater a desinformação em tempo real e engajar a sociedade.

A proteção do espaço cívico e da imprensa livre é indispensável. Uma mídia independente, sociedade civil ativa e academia devem poder fiscalizar e debater o processo sem intimidação. Plataformas de redes sociais devem ser responsabilizadas e cooperar ativamente para conter campanhas de ódio e notícias falsas que possam incitar violência ou fraudar o debate.

A insistência em realizar as eleições de 2026 conforme o previsto reflete a força do calendário constitucional brasileiro. Mas a mera realização do pleito não define a qualidade da democracia, confiança, integridade e paz social sim. A menos que o Brasil enfrente suas crises de segurança pública, polarização tóxica e erosão da confiança nas instituições, as próximas eleições poderão ser um campo de batalha, não um espaço de decisão coletiva. O Brasil está numa encruzilhada: pode transformar as eleições de 2026 em um exemplo de resiliência democrática, com diálogo, segurança e ampla participação, ou pode correr o risco de aprofundar os ciclos de conflito e deslegitimação que ameaçam sua estabilidade. A escolha é clara, e o trabalho para garantir eleições pacíficas, seguras e confiáveis deve começar agora, envolvendo toda a sociedade.

Nilson Apollo Belmiro Santos é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário (CRECI 15673), além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Apollo tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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