Na fila, alguém reclamava da vida. Alguém ria alto. E eu, ali no meio, percebendo que escolher também é aceitar

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 09/12/2025
Escolhas
Lin Quintino
A gente passa o dia escolhendo sem perceber. Escolhe levantar quando o despertador toca pela terceira vez. Escolhe adiar a resposta importante. Escolhe o café sem açúcar, mesmo querendo doce. Escolhe o caminho mais longo para evitar um encontro que ainda dói. Escolhe como quem respira: automático, às vezes inconsequente, quase sempre silencioso.
Ninguém avisa que as pequenas escolhas são as que dão mais trabalho depois.
Naquela terça-feira, por exemplo, escolhi não responder a mensagem. Não por orgulho, foi por cansaço. Uma exaustão mansa, dessas que parecem preguiça, mas são só um pedido de paz. A mensagem ficou ali, piscando, como quem chama de leve na porta. E eu fiz de conta que não ouvi.
Desci para comprar pão. O padeiro me deu bom dia com a mesma voz de sempre, e isso me confortou mais do que eu esperava. Pensei que a constância também é uma escolha. Voltar ao mesmo lugar, cumprimentar as mesmas pessoas, sustentar a rotina como quem segura um corrimão.
Na fila, alguém reclamava da vida. Alguém ria alto. E eu, ali no meio, percebendo que escolher também é aceitar: aceitar que não dá para viver todas as versões de nós mesmos ao mesmo tempo.
De volta para casa, a mensagem ainda estava lá. Escolhi abrir. Escolhi responder com menos palavras do que sentia. Escolhi não explicar demais. Escolhi não me abandonar para agradar. Doeu um pouco. Mas doeu no lugar certo.
Porque há escolhas que machucam como injeção: ardidas, necessárias, passageiras.
À noite, escolhi um filme antigo. Escolhi não sair. Escolhi o silêncio como companhia. E descobri que ele também conversa, se a gente aprende a escutar.
No fim, entendi: a gente não escolhe só o que quer. Escolhe o que consegue. Escolhe o que dá. Escolhe o que ainda é possível com o pouco de coragem que sobrou no dia.
E às vezes, a maior escolha é continuar, mesmo sem certezas, mesmo em partes, mesmo com medo.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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