“Da Sabedoria Política ao Conflito no Corredor de Calçados: Quando a Alta Política Vira Discussão de Armário”

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 23/12/2025
Na cena política brasileira atual, um fenômeno sintomático se desenha com clareza angustiante: a política real, com seus debates estruturais sobre desenvolvimento, saúde, educação e soberania, parece ter sido sequestrada por uma guerra cultural de baixíssimo intelecto. O episódio mais recente, o chamado boicote a uma marca de chinelos, não é apenas uma curiosidade folclórica. É o retrato perfeito de uma polarização que, ao esgotar seus repertórios, passa a fabricar inimigos no catálogo de produtos do varejo.
Enquanto o país enfrenta desafios complexos como a reindustrialização, a transformação digital, a crise habitacional e a reconstrução de seu papel geopolítico, uma parcela ruidosa do espectro político direciona sua artilharia para… um par de sandálias. O motivo? Uma suposta afiliação ideológica da marca, alimentada por narrativas difusas nas redes sociais. Não se discute mais projeto de nação; discute-se logotipo em solado.
Esse fenômeno não surge do vácuo. Ele é o subproduto inevitável de uma política reduzida a espetáculo e identidade tribal. Quando as grandes narrativas de futuro se esgotam ou se tornam muito complexas para o debate rápido das redes, a militância digital busca seus inimigos em símbolos palpáveis e consumíveis. O alvo deixa de ser uma política pública e passa a ser um produto no shopping. A adesão à causa se mede não pelo estudo de um plano de governo, mas pelo ato performático de trocar de marca de chinelo.
A esquerda, é claro, não está imune a essa lógica simplificadora. Já tivemos episódios semelhantes de patrulha de consumo vindo de outros espectros. Mas a extrema direita brasileira parece ter elevado essa tática ao nível de plataforma política permanente. Criou-se um mecanismo perverso: primeiro, inventa-se uma polêmica onde não há; depois, mobiliza-se a base em torno desse simulacro de conflito; por fim, celebra-se a adesão ao boicote como prova de pureza ideológica. É a política como checklist de consumo leal.
O resultado mais perverso desse circo não é o prejuízo eventual de uma empresa, o mercado sempre se ajusta, mas o esvaziamento completo da arena pública. Enquanto cidadãos se digladiam sobre chinelos, o Congresso vota medidas que afetam milhões sem o devido escrutínio popular. Enquanto algoritmos amplificam a ira sobre escolhas de vestuário, debates cruciais sobre reforma tributária, inteligência artificial ou transição energética passam despercebidos.
Há um dado tragicômico nisso tudo: a mesma turma que prega o “liberou geral” econômico e enaltece o livre mercado agora mobiliza frentes de boicote organizado contra uma empresa privada por supostos delitos de pensamento. A contradição escancara o que realmente está em jogo: não princípios, mas poder simbólico. O objetivo não é defender o mercado, mas demonstrar força de mobilização e controle sobre o rebanho.
Quando a política se torna uma guerra de marcas, todos perdemos. O cidadão deixa de ser um ser político para se tornar um consumidor de identidades. A deliberação sobre os rumos do país cede espaço à escolha entre chinelos A ou B. A democracia, que deveria ser o espaço da complexidade, se reduz a um tribalismo de grife.
Talvez o episódio dos chinelos seja o alerta definitivo: ou resgatamos a política das profundezas do consumismo identitário, ou nos condenamos a um eterno e vazio debate de guarda-roupa, enquanto o país real. com seus problemas reais, segue à deriva, sem rumo e sem debate. A pergunta que fica é: quando deixaremos de ser consumidores de polêmicas fabricadas e voltaremos a ser cidadãos de uma república?

Nilson Apollo Belmiro Santos é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário (CRECI – ES 15 673), além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.






