“Enquanto preparava o café, repetiu mentalmente a agenda de todos. Era um hábito antigo, que começara em 1989, quando nasceu o primeiro filho e ela descobriu que a vida não esperaria por sua prontidão emocional.”

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 25/12/2025
Nota do colunista
Este conto nasceu de uma observação doméstica, quase banal. Em tempos de fim de ano, percebo como as casas se reorganizam — listas, horários, compras, encontros — e como, em geral, são as mulheres que sustentam esse movimento silencioso. Vi isso na minha infância, volto a ver agora, e me perguntei quantas dessas rotinas deixam espaço para que alguém continue sendo apenas quem é.
A Casa Silenciosa acompanha Maria Regina, uma mulher que aprendeu cedo a existir com discrição e competência, até perceber que, em algum ponto do caminho, também precisava de um lugar onde não fosse chamada o tempo todo.
Optei por dividir o conto em duas partes porque, embora seja uma narrativa breve, ela pede um pouco de respiro. Nesta primeira semana, o leitor conhece a personagem e o mundo que a cerca. Na próxima, a história avança para aquilo que ela constrói para não desaparecer.
Que a leitura seja feita com calma — e, se possível, em silêncio.
Boa leitura.
A CASA SILENCIOSA (Primeira Parte)
Paulo Siuves
Maria Regina Duarte sempre acordou antes de todos. Primeiro vinha o ranger leve da cama, depois o som abafado dos chinelos no corredor, e por fim o abrir cuidadoso da porta da cozinha — gesto aprendido desde jovem, como se uma mulher precisasse existir devagar para não atrapalhar ninguém. Tinha cinquenta e quatro anos e mais de trinta de casamento com Álvaro Henrique Duarte, homem bom, de temperamento tradicional, mas incapaz de encontrar a margarina na geladeira mesmo quando ela brilhava na prateleira da frente.
Enquanto preparava o café, repetiu mentalmente a agenda de todos. Era um hábito antigo, que começara em 1989, quando nasceu o primeiro filho e ela descobriu que a vida não esperaria por sua prontidão emocional. E agora, décadas depois, com todos os filhos adultos — cada um oferecendo seu próprio tipo de sobrecarga — essa lista mental continuava longa. Daniel precisava de ajuda com os gêmeos. Sofia reclamava que o marido não a escutava. Manuela vivia exausta no hospital e deixava as crianças com frequência em sua casa. Gabriel, o caçula, ainda confundia responsabilidade com afeto.
Maria Regina trabalhava como psicóloga clínica e professora convidada em uma universidade particular, mas ninguém — nem os filhos, nem o marido — entendia o peso de cuidar emocionalmente dos outros depois de uma vida inteira cuidando da própria família. Acreditavam que sua vocação era um dom inato, e não uma profissão que drenava, silenciosamente, a alma.
Quando o relógio marcou oito, Álvaro apareceu na cozinha reclamando que uma das gravatas estava com o nó frouxo. Maria Regina sorriu, ajeitou o tecido com gestos tão automáticos quanto antigos e respirou fundo. Havia aprendido, ao longo das décadas, que certos homens não reconhecem a própria dependência; apenas a chamam de rotina.
Depois que ele saiu, ela pegou sua mala pequena — duas blusas, um livro, uma calça confortável — e disse à família que viajaria a trabalho. Não mentia totalmente: havia anos aprendera a criar brechas invisíveis para si mesma. Pequenos arranjos — quase clandestinos — que a impediam de afundar. E se existia um trabalho que nunca cessava, era o de manter-se viva.
A casa do Silêncio
A Casa Silenciosa ficava em um bairro antigo, de prédios pequenos e varandas estreitas. Maria Regina a comprara com uma reserva financeira que construíra ao longo de anos — um fundo de investimento silencioso, emocional e material para autonomia, um dinheiro separado devagar, mantido à margem das urgências domésticas. Não ocultava por rebeldia, mas por necessidade, porque aprendera cedo que, para algumas mulheres, certas liberdades só sobrevivem quando guardadas.
Naquele tempo, enquanto concluía a graduação na universidade federal, ainda frequentava rodas de leitura, grupos de debate feminista, salas abafadas de filosofia onde professoras repetiam que “uma mulher precisa de um quarto só seu, nem que seja inventado”.
Ela não inventara; comprara.
O apartamento tinha o tamanho exato do que ela precisava: uma sala com estante até o teto, um quarto de madeira clara onde a luz da manhã entrava sem pedir licença, uma cozinha pequena sempre com cheiro de chá recém-aquecido e uma varanda estreita de onde se ouvia, ao longe, o sussurro constante da cidade — um rumor que chegava filtrado, como se o mundo estivesse falando baixinho só para não perturbá-la.
Adélia, que trabalhara como empregada na casa da família Duarte — presença confiável desde que Daniel nasceu — cuidava do apartamento com devoção discreta. Trocava os lençóis, deixava a chaleira pronta, mantinha o piso liso como pedra lavada — uma textura fresca sob os pés, que lembrava a Maria Regina que ali ninguém arrastava nada de si para dentro. Nunca perguntava nada. Havia entre as duas um pacto invisível, como se Adélia compreendesse que o silêncio também é trabalho — e trabalho merece resguardo.
Maria Regina abriu a porta devagar, como quem retorna a uma língua antiga. Deixou a mala no chão, tirou os sapatos e esperou o corpo entender que ali valia outra regra. A respiração desceu um tom.
Naquele apartamento, ela não era mãe de quatro, avó de quatro, esposa diligente, profissional solicitada. Era apenas uma moradora. Uma leitora.
O mundo ficava longe. A cidade, mais longe ainda.
Origens
Sentou-se na poltrona e abriu um livro antigo — não por descuido, mas porque era um dos poucos que ela guardava ali desde antes de Adélia organizar tudo do seu jeito meticuloso. As páginas tinham a textura do que se lê devagar.
Enquanto folheava, as lembranças começaram a emergir.
Recordou-se da casa dos pais, ainda nos anos 80. A mãe sempre descabelada, cheirando a alho, ajeitando tudo para o pai: o prato, a roupa, a toalha, o moral. A mãe que dizia “mulher é ser de fronteira”, sempre entre o que precisa ser feito e o que ninguém percebe que ela faz. Uma mulher que apagou devagar, como vela velha, até restar apenas uma presença cansada à cabeceira da mesa.
Lembrou-se das conversas na universidade — vozes de colegas, professores, autoras que acendiam nela ideias que ela nem sabia que precisava. Palavras como autonomia, individuação, protagonismo. Depois vieram casamento, filhos, tempo curto, contas, noites sem sono. E aquelas palavras voltaram a ser apenas conceitos guardados, não abandonados, mas deixados para “quando desse”.
A Casa Silenciosa também nasceu desse “quando desse”. Não surgiu por milagre. Nem por quebra. Foi resultado de anos de pequenos gestos discretos: consultorias paralelas bem pagas, direitos autorais de um artigo técnico que circulou mais que o esperado, bônus anuais que ela escolheu não converter em eletrodomésticos ou reformas, aplicações modestas mas constantes. Tudo dentro do que a lei reconheceria como deles dois — mas afirmando uma escolha que era só sua, como um gesto de sobrevivência simbólica.
A Casa Silenciosa não era um luxo.
Era um território recuperado tarde, mas ainda a tempo.

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






