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O MANUAL DO “SEQUESTRO” GEOPOLÍTICO – UM CRIME PERFEITO – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

Enquanto um presidente era sequestrado em Caracas, um acordo maior era fechado nas sombras do poder global. O que não contam sobre as trocas, os silêncios e o petróleo que moveu cada peça neste tabuleiro de sangue e barrÍs

A narrativa que se consolidou sobre os eventos na costa da Venezuela neste fim de semana é conveniente: um ataque de “mercenários” desastrados, uma operação silenciosa que tinha tudo para terminar em tragédia nas primeiras páginas de jornais mundiais, mas, o fato central e perturbador: a operação não foi um fracasso. Ela atingiu seu núcleo. O Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro e sua esposa, que foram sequestrados em suas residência oficial.

A eficácia tática, porém, não explica o evento. Pelo contrário, torna-o uma janela ainda mais obscura para as entranhas da geopolítica contemporânea. O que aconteceu vai além de um mero incidente de segurança; foi uma demonstração prática da liquefação absoluta da soberania nacional. Quando um chefe de Estado em exercício pode ser fisicamente extraído de seu país por forças de outra nação, todas as regras anteriores são revogadas. O caso está longe de encerrado. Ele acaba de abrir um abismo de interrogações, e precedentes perigosíssimos.

Enredo de filmes

Depois da suposta “morte” de Bin Laden, creditada também aos EUA, o sucesso da operação em solo venezuelano é ofuscado pelo mistério da reação ou da falta dela. Por que os aliados estratégicos de Caracas limitaram-se a condenações verbais? Onde estava o suporte militar concreto, a retaliação diplomática esmagadora, o socorro exigido por um tratado de defesa mútua? A ausência de ação fala mais alto que qualquer comunicado. Da mesma forma, por que potências regionais próximas, como o próprio Brasil, em momentos anteriores, negaram a Maduro o reconhecimento eleitoral pleno e barraram a entrada da Venezuela no bloco dos BRICS? O isolamento parece ter sido um prelúdio necessário.

A Vulnerabilidade Calculada e a Cumplicidade Passiva

Os detalhes logísticos são inquietantes. Como é possível que helicópteros não identificados penetrem o espaço aéreo mais sensível do país e pousem a apenas 20 km do litoral, no coração do poder, sem encontrar resistência? A proximidade da capital com o mar sempre foi um risco estratégico, aos que não sabem, Brasília no interior do Brasil, era fetiche dos governantes do Brasil desde a época do Império. Mas a pergunta que se impõe agora é: essa vulnerabilidade foi explorada ou facilitada? A linha entre invasão e “busca de uma encomenda” torna-se perigosamente tênue quando não há oposição. E não nos enganemos, as Forças Armadas da Venezuela encontram-se entre as mais fortes e bem armadas do mundo.

A Narrativa Global e os Acordos de Bastidores

Imediatamente, uma narrativa global homogênea tratou de rotular o ocorrido, desviando o foco do sequestro em si. Quem formata essa linha de pensamento coletivo, capaz de minimizar um ato de guerra? A pergunta sobre quem controla o consenso midiático nunca foi tão urgente, pois, foi perceptível, além das letras, que a linha de ação das redações da grande imprensa, trabalhou incansávelmente para validarem uma narrativa desconstrutíva da liderança da Venezuela.

Além de toda a operação prévia da mádia, as suspeitas mais profundas, porém, migram para as mesas de negociação invisíveis. O que foi efetivamente barganhado nas reuniões fechadas entre líderes mundiais nos meses anteriores? As súbitas concessões comerciais a certos países, o recuo de sanções legais, o posicionamento estratégico de frotas navais dias após reunião com vizinhos influentes, são todas peças de um mesmo quebra-cabeça? E nesta mesma semana, o súbito avanço chinês sobre a rebelde ilha deTaiwan que se encontra no momento cercada, as declarações ucranianas sobre um acordo de paz 90% concluído com a Rússia e a viagem de Netanyahu aos EUA para discutir o Irã parecem movimentos coordenados em um tabuleiro maior. Estamos testemunhando uma repartição de esferas de influência, onde nações inteiras são moedas de troca?

A Hipocrisia Seletiva e o Prêmio Final

O episódio escancara, mais uma vez, a seletividade brutal da ordem internacional. Por que algumas ditaduras são alvos e outras são parceiras? A resposta sempre aponta para recursos. Quem, além dos EUA, está de olho no petróleo venezuelano? O sequestro de Maduro não foi um fim, mas possivelmente o meio para forçar uma mudança de regime que libere esse prêmio.

O Futuro nas Mãos de uma Geração que Parte

Por fim, uma questão sobre o legado. Com os principais arquitetos desta ordem, Trump, Putin, Xi, Lula, entrando em seu ocaso político e biológico, ou seja, estão morendo – quem herdará o manual dessas operações nas sombras? Quem continuará a mover as peças neste teatro geopolítico onde o sequestro de um presidente é executado, mas suas implicações mais profundas são cuidadosamente ofuscadas?

O ataque a Caracas não foi um fiasco. Foi um êxito operacional que expôs, de forma crua, os verdadeiros mecanismos de poder do nosso tempo: um mundo onde a soberania é negociável, os aliados são condicionais e as únicas verdades são as perguntas que não ousamos responder completamente. O sequestro aconteceu. O resgate das explicações, esse, ainda está pendente.

A linha foi cruzada. Um presidente foi arrancado do próprio palácio.
O que chamam de “fracasso” foi, na verdade, a lição mais clara:
nenhum país está a salvo. Nenhuma regra é real.

O silêncio dos aliados grita.
A facilidade da operação assusta.
As perguntas sem resposta condenam.

Não é sobre Venezuela.
É sobre quem mandou.
Quem permitiu.
Quem vai ser o próximo.

O jogo mudou.
O tabuleiro é o mundo.
E você está apenas assistindo.

Ou será que também está negociando?


Nilson Apollo Belmiro Santos
 é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário (CRECI – ES 15 673), além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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