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Acordo com a União Européia: Seremos apenas o celeiro? – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

Enquanto celebramos recordes de exportação de commodities, o acordo com a União Europeia expõe uma escolha estratégica: continuaremos fornecedores de matérias-primas ou nos tornaremos uma potência industrial integrada ao mundo?

A notícia do avanço do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia deveria acionar um sinal de emergência nacional. Em vez disso, boa parte do noticiário econômico se concentra em celebrar o aumento das exportações de café, soja e minério. É simbolicamente perfeito: enquanto o mundo negocia cadeias de valor, tecnologia e integração produtiva, nós seguimos fixados no ciclo secular de exportar o que plantamos ou retiramos do solo.

O acordo com a Europa não é apenas uma redução de tarifas. É uma janela histórica para redesenhar o papel do Brasil na economia global. A União Europeia, em busca de segurança estratégica e diversificação de fornecedores, está aberta a realocar etapas produtivas. Países como Vietnã, México e Polônia já se movem agressivamente para capturar esses investimentos com zonas econômicas especiais, infraestrutura logística e ambientes regulatórios estáveis.

E o Brasil? Segue apostando no mesmo script de séculos: vender commodities e importar produtos manufaturados. É como se a Revolução Industrial não tivesse acontecido, ou pior, como se a Quarta Revolução Industrial fosse um fenômeno exclusivo de outros continentes. Essa não é apenas uma falha de política econômica; é uma falha de imaginação coletiva. Nosso subdesenvolvimento não é só falta de recurso, é produto de uma mentalidade que se conforma com o lugar de fornecedor primário.

Um acordo como esse deveria vir acompanhado de um plano ousado: a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) voltadas a setores estratégicos, autopeças, química fina, medicamentos, energias renováveis, digital, com regras claras, tributação competitiva e conexão direta com os portos. Deveríamos estar enviando missões a Stuttgart, Milão e Toulouse para convencer indústrias a produzir aqui não só para o mercado brasileiro, mas para exportar com competitividade à Europa.

Mas, para isso, seria preciso enxergar o acordo não como fim, mas como meio. Meio para gerar empregos de maior valor agregado, para transferência de tecnologia, para inserção em redes globais de produção. Em resumo, para fazer o Brasil deixar de ser um país que vende café para ser um que exporta máquinas de café de alta tecnologia, ou seus componentes inteligentes.

Enquanto não superarmos essa visão limitada de nós mesmos, continuaremos condenados à volatilidade dos preços das commodities, à desindustrialização precoce e ao lugar secundário no concerto das nações. O acordo com a União Europeia está aí. A pergunta que fica é: vamos usá-lo para dar o salto ao século XXI, ou para reforçar nossa posição no século XIX?

O futuro não espera. E, desta vez, não basta mais ser o celeiro do mundo. É preciso ser também sua fábrica, seu laboratório e seu centro de inovação. O café pode até ser nosso, mas a xícara inteligente que o prepara, não.

Até quando vamos aceitar isso?


Nilson Apollo Belmiro Santos
 é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário (CRECI 15673), além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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