Brasil Internacional

Lula diz que o Brasil não vai ‘abaixar a cabeça’ diante da tentativa de Trump em rasgar a carta da ONU

“O multilateralismo está sendo jogado fora. O Trump quer criar uma nova ONU, comandada por ele. Mas nós não vamos aceitar”

SALVADOR – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um alerta contundente sobre o futuro da ordem global durante encontro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nesta sexta-feira (23), em Salvador. Ao afirmar que o multilateralismo está “sendo jogado fora”, Lula mencionou uma iniciativa do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump que, segundo ele, buscaria criar uma “nova ONU”, sob comando norte-americano.

“O multilateralismo está sendo jogado fora. O Trump quer criar uma nova ONU, comandada por ele. Mas nós não vamos aceitar”, disse Lula, diante de uma plateia de militantes. Embora não tenha detalhados documentos ou propostas formais, a referência parece aludir a movimentos geopolíticos observados durante e após o governo Trump, que privilegiaram alianças seletivas em detrimento de fóruns universais como a Organização das Nações Unidas.

Disparidade militar e resposta pela dignidade
Em seguida, o presidente reconheceu a larga superioridade bélica dos Estados Unidos e a precariedade das Forças Armadas brasileiras. No entanto, usou o contraste para reforçar um posicionamento de soberania. “Eles têm as armas, mas nós temos a dignidade. O Brasil não vai baixar a cabeça para ninguém”, declarou, sob aplausos.

A fala ressoa um eixo central da política externa do atual governo: a busca por autonomia e a reafirmação do Brasil como voz ativa no cenário internacional, mesmo sem poder militar equivalente ao das grandes potências.

Contexto e reações
Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que o discurso serve a dois propósitos. No plano externo, reforça a crítica a uma tendência de fragmentação do sistema multilateral, onde coalizões restritas – como o chamado Quad (Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália) – ganham espaço. No plano interno, a mensagem fortalece a imagem presidencial perante sua base, projetando firmeza e independência.

O Itamaraty tem defendido a reforma do Conselho de Segurança da ONU e maior participação de países em desenvolvimento nas instâncias decisórias globais. A menção de Lula à “nova ONU” de Trump soa como um reforço a essa bandeira, ainda que com tom de alerta sobre os riscos de marginalização dos fóruns tradicionais.

A assessoria da Casa Branca não se pronunciou sobre as declarações até o fechamento desta edição.

Para contextualizar:

  • Multilateralismo: sistema de relações internacionais baseado em cooperação entre múltiplos países, com a ONU como principal símbolo.
  • Trump e a ONU: durante seu mandato, Trump retirou os EUA de vários acordos e organismos multilaterais, como a UNESCO e o Acordo de Paris, e criticou repetidamente a ONU.
  • Posição do Brasil: após anos de aproximação com Washington no governo anterior, Lula busca reposicionar o país como mediador global e voz do Sul Global.

A declaração ocorre em um momento de redefinição de alianças mundiais e aumenta o tom da defesa brasileira por uma ordem multipolar

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