Internacional Mercados/Negócios

O BAILE DOS MONSTROS – A LISTA PROIBIDA QUE TODO MUNDO VIU E NÃO REAGE – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

Eles contaram com o nosso cansaço. Contaram com a complexidade do caso. Contaram, sobretudo, com a nossa reverência patológica aos títulos, às fortunas, ao poder

O BAILE DOS MONSTROS – A LISTA PROIBIDA QUE TODO MUNDO VIU E NÃO REAGE

Nilson Apollo Belmiro Santos

Há exatos sete anos, Jeffrey Epstein “suicidou-se” em uma cela de segurança máxima. A data passa em branco. Nenhum tributo, claro. Apenas um silêncio pesado, o mesmo que há décadas envolve o caso mais escandaloso, óbvio e grotesco da elite global. Um silêncio que não é ausência de som. É o ruído ensurdecedor da conivência.

Enquanto escrevo, reviso não “teorias”, mas documentos judiciais. Não “rumores”, mas depoimentos sob juramento. E neles, uma lista de nomes. Não são fantasmas. São figuras públicas cujas caras sorridentes ainda povoam nossos ecrãs. A pergunta que martela é: por que sabemos tanto e fizemos tão pouco?

Vamos nomear os ambientes do horror, para que não haja mais desculpa de “não sabia”:

· A Ilha Privada (Little St. James): O palco principal. Apelidada de “Ilha Orgia” nos autos.
· A Mansão de Nova York (71ª e 5ª): A maior casa particular de Manhattan, onde o abuso tinha horário marcado.
· O Boeing 727, o “Lolita Express”: A ponte aérea do crime, com seu registo de passageiros mais valioso que qualquer tabloide.

E agora, vamos nomear os envolvidos que a história tenta apagar. Esta lista não é fruto de conspiração. É compilada a partir de:

  1. Registos de voos do “Lolita Express” (documentos da corte).
  2. Diários de Ghislaine Maxwell (apresentados como prova).
  3. Depoimentos de vítimas (Virginia Giuffre, entre outras).
  4. E-mails internos e registos de visitas (obtidos por investigações policiais e jornalísticas).

A HIERARQUIA DA CULPA: QUEM ESTAVA ONDE?

O NÚCLEO CRIMINOSO (CONDENADOS OU FALECIDOS)

· Jeffrey Epstein: O financiador e arquiteto. Morto.
· Ghislaine Maxwell: A recrutadora e gerente. Condenada a 20 anos de prisão.
· Jean-Luc Brunel: O agente de modelos que “fornecia” meninas. Morto na prisão francesa.

OS FACILITADORES ESSENCIAIS (OS QUE TORNARAM TUDO POSSÍVEL)

· Leslie Wexner: O magnata das Victoria’s Secret. Fonte primária da fortuna de Epstein. Deu-lhe procuração total sobre sua vida e finanças. A relação financeira mais profunda e menos explicada do caso.
· Alan Dershowitz: Jurista famoso. Parte da defesa de Epstein em 2008. Nomeado diretamente por Virginia Giuffre como um dos homens a quem foi levada. Lutou ferozmente para limpar seu nome.
· Sarah Kellen & Nadia Marcinkova: Assistentes nomeadas por vítimas como cúmplices diretas no recrutamento e logística. Beneficiaram de imunidades no acordo de 2008.

III. OS CONVIDADOS ILUSTRES (NOMES NOS REGISTROS E DEPOIMENTOS)

· Príncipe Andrew, Duque de York: O caso mais documentado. A foto icônica com Giuffre. O depoimento catastrófico na BBC. O acordo extrajudicial milionário com Giuffre. Negou, mas suas explicações foram ridicularizadas publicamente.
· Bill Clinton: 26 voos documentados no “Lolita Express”, segundo registos de tripulação. Viagens incluíam a África com atores e a ilha privada. A Fundação Clinton recebeu doações de Epstein.
· Donald Trump: Socializou publicamente com Epstein nos anos 90 e 2000, chamando-o de “cara fantástico”. Uma das vítimas disse ter sido recrutada no clube Mar-a-Lago de Trump. Não há acusação direta contra Trump.
· Bill Richardson (ex-governador): Mencionado em documentos. Uma sobrevivente processou-o, depois retirou a acusação.
· Glenn Dubin & Eva Andersson-Dubin: O casal bilionário próximo de Epstein. Eva era frequentadora assídua. Nomeados em depoimentos.
· Marvin Minsky (pioneiro da IA): Nomeado por Giuffre como um dos cientistas a quem foi levada na ilha privada. Já falecido.
· Leon Black (cofundador da Apollo): Admitiu pagar US$ 158 milhões a Epstein após sua condenação de 2008, por “serviços de consultoria fiscal”.

O CORTEJO SOCIAL (A CORTINA DE FUMAÇA)

· David Copperfield, Kevin Spacey, Chris Tucker, Naomi Campbell, Woody Allen… Nomes que aparecem em listas de convidados para jantares. Sua presença servia à lavagem de imagem, dando ao círculo um ar de normalidade e glamour. A maioria nega qualquer conhecimento das atividades criminosas.

O PACTO DE SILÊNCIO: COMO TUDO FOI ABAFADO

  1. O Acordo de 2008 (Promotor Alexander Acosta): Epstein pleiteou culpado por dois crimes estaduais menores. As vítimas federais não foram consultadas. Foi a impunidade comprada.
  2. A Imprensa Adormecida: Histórias mortas, repórteres desencorajados. Até que a jornalista Julie K. Brown (Miami Herald) ressuscitou o caso em 2018.
  3. As Mortes “Oportunas”: Epstein (2019) e Brunel (2022) morreram sob custódia. Fontes primárias, caladas para sempre.
  4. O Julgamento Seletivo: Apenas Maxwell foi a julgamento. Os nomes dos clientes poderosos foram pouco explorados no tribunal. A justiça focou no fornecedor, não na clientela.

A NOSSA CULPA COLETIVA

Esta lista não é uma acusação judicial. É um espelho. Mostra como o poder, o dinheiro e a fama criam um campo de distorção da realidade onde o impensável se torna rotina.

O verdadeiro escândalo não é que esses nomes estivessem lá. O verdadeiro escândalo é que, sabendo que estavam lá, o mundo seguiu adiante. Nenhum tribunal internacional. Nenhuma comissão de inquérito com poder real. Apenas um sussurro constrangido, um encolher de ombros coletivo.

Eles contaram com o nosso cansaço. Contaram com a complexidade do caso. Contaram, sobretudo, com a nossa reverência patológica aos títulos, às fortunas, ao poder.

O baile dos monstros acabou. Mas a orquestra nunca parou de tocar. Apenas mudou de salão. E nós, sociedade, pagamos a conta do silêncio.

P.S.: Esta coluna estará disponível online. Os advogados de todos os acima nomeados estão convidados a contactar a redação. Teremos todo o prazer em publicar, na íntegra, as suas negações formais. Afinal, o contraditório é a base da democracia que muitos deles dizem defender. Aguardamos.


Nilson Apollo Belmiro Santos
 é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário,  (CRECI – ES 15 673F), e Perito Judicial, além de escrever semanalmente no Jornal Clarín Brasil – JCB News, com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

Curta,compartilhe e siga-nos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *