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A vida pela tela do celular – Por Lin Quintino

“O tempo não desliza com o dedo — ele passa devagar, como sempre passou, e talvez seja nisso que mora o espanto.”

A vida pela tela do celular

Lin Quintino

Acordamos antes do Sol, mas depois da notificação. O dia ainda boceja e já existe alguém falando conosco — ou ao menos falando para todos. A primeira luz que vemos não é a do céu, é a de um retângulo que nos promete o mundo inteiro em cinco polegadas. Deslizamos o dedo como quem abre a janela, mas o vento que entra é feito de imagens filtradas e vozes editadas.

Tomamos café com gente que não está na mesa. Viajamos sem sair da cadeira. Sabemos o que um desconhecido comeu no almoço e o que um amigo sentiu às três da manhã. Sabemos de tudo, exceto do silêncio entre uma coisa e outra. O celular é uma espécie de oráculo portátil: responde rápido, mas raramente nos escuta.

Na fila do mercado, todos curvam a cabeça na mesma reverência luminosa. Parece um culto silencioso. Ninguém repara no menino que dança no estacionamento, nem na senhora que conta moedas com paciência de quem aprendeu a esperar. As histórias reais passam sem legenda. Não têm música de fundo. Não viralizam.

Pela tela, a vida é sempre um pouco mais nítida e um pouco menos verdadeira. A felicidade cabe em stories de quinze segundos, a tristeza em textos curtos, a revolta em comentários inflamados. Tudo se resolve com um toque: curtir, compartilhar, silenciar. O mundo ficou administrável, mas talvez menor.

Ainda assim, é pela tela que enviamos amor quando a distância aperta. É por ela que chegam notícias que nos fazem respirar aliviados. É nela que guardamos rostos que não podemos ver todos os dias. O celular também é ponte, não só muro. O problema é quando esquecemos de atravessá-la.

Às vezes, desligo por alguns minutos e o mundo reaparece em versão não editada. O barulho da rua é mais alto que qualquer vídeo. O céu não cabe em moldura. O tempo não desliza com o dedo — ele passa devagar, como sempre passou, e talvez seja nisso que mora o espanto.

Não é a tela que aprisiona a vida. Somos nós que, com medo de perdê-la, a comprimimos ali dentro. E enquanto buscamos registrar cada instante, a vida, discreta, continua acontecendo do lado de fora, sem precisar de sinal.

Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores

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