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O MENINO E O CAMINHÃOZINHO – Por Paulo Siuves

O caminhão fica deitado de lado, com as rodas ainda quentes do asfalto inventado. Silencioso. Sem motor. Sem buzina.

O MENINO E O CAMINHÃOZINHO

Paulo Siuves

O chão da sala é um mapa.

Rachaduras viram avenidas. O tapete é um morro. A quina do sofá, um túnel perigoso onde só passa caminhão valente.

O menino deitado de bruços segura o caminhãozinho vermelho. Pequeno, mas poderoso. Rodas gastas, lataria reluzente, adesivo meio arrancado, caçamba que levanta e desce com um clec orgulhoso.

— Vruuummm…

Ele não está empurrando. Ele está conduzindo.

O caminhão sai da garagem (embaixo da mesa), atravessa a ponte (um livro esquecido), enfrenta a tempestade (a sombra da cortina balançando). Carrega coisas importantes. Coisas que ele não precisa dizer o nome. Talvez areia. Talvez estrelas. Talvez os segredos da cidade inteira.

Não importa.

O importante é o ronco do motor.

— Vruuuuuum… tchhhhhh… réééé…

A boca faz o barulho que o mundo ainda não sabe fazer. O caminhão sobe o morro do tapete, quase tomba, mas não tomba. Caminhão bom não tomba. Entrega a carga. Volta para buscar mais.

Ele é dono da cidade.

Se quer rua nova, desenha com o dedo no pó do chão. Se quer pedágio, põe um chinelo atravessado na pista. Se quer trânsito, junta dois carrinhos menores e faz buzina com a língua.

Ali, ninguém manda nele.

O relógio da parede não apita no céu daquela cidade. Não há semáforo. Não há pressa. Só estrada.

O caminhão roda a tarde inteira. O sol entra pela janela e vira farol alto na lataria de plástico vermelho. O menino aperta os olhos, concentrado. Motorista sério. Profissional.

— Última entrega do dia! — ele sussurra.

Mas o dia não termina quando ele quer.

Passos no corredor.

— Já guardou esses brinquedos?

A cidade estremece.

O caminhão para no meio da avenida imaginária. Carga pela metade. Missão incompleta.

Ele olha para o morro do tapete, para o túnel do sofá, para a ponte-livro. Tudo ainda está ali. Mas já não está.

A mãe recolhe o caminhão. A garagem vira caixa plástica azul. A estrada vira chão de sala outra vez.

— Depois você brinca. Agora vem tomar banho.

— Aaah, mãe… Depois?

O caminhão fica deitado de lado, com as rodas ainda quentes do asfalto inventado. Silencioso. Sem motor. Sem buzina.

O menino vai.

A vida exige dele coisas estranhas: pijama dobrado na cama.
O cheiro do sabonete já espalhado.
A cidade ficou na sala.
Exige que ele seja pequeno no corpo e grande nas obrigações.

No banheiro, a água cai como chuva de verdade. Ele fecha os olhos.

— Vruuuummm…

Baixinho. Só pra ele. Segurando o volante imaginário, passa marcha no ar…

Mas o barulho já não ecoa igual.

Ele guarda a cidade inteira dentro da caixa azul.
O morro vira pano. A ponte volta a ser livro.
A cidade agora cabe embaixo da cama.

Dentro da caixa azul, o caminhão espera. Não sabe que um dia as estradas vão ser de asfalto mesmo. Não sabe que haverá horários que não cabem em tapetes,
haverá trânsito de verdade,
boletos de verdade.

O menino também não sabe.

Ainda.

Só sente.

Coração apertado.
Espuma escorrendo pelo braço.
Que mundo.

Amanhã ele talvez dirija outra vez. Talvez construa outra cidade. Talvez o caminhão perca uma roda.

E um dia — sem perceber quando — ele vai atravessar as ruas reais sem fazer barulho nenhum com a boca.

Sem túnel de sofá.
Sem ponte de livro.

Só atravessar.

E seguir.

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One Reply to “O MENINO E O CAMINHÃOZINHO – Por Paulo Siuves

  1. Amei esse texto.
    Que sensibilidade a sua Paulo. Fiquei até emocionada. Me lembrei dos três pequenos:Davi,Paulo e Anderson.
    Tinha ônibus com as cadeiras,rsrsrs,lembra?

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