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À saída do cinema – Por Lin Quintino

Carregamos um pouco da luz projetada na retina, um diálogo que insiste em ecoar, uma lágrima que decidimos não enxugar até atravessar a porta.

À saída do cinema

Lin Quintino

A porta automática se abre como quem suspira e devolve o mundo.

Lá dentro, duas horas de roteiro, trilha sonora, close dramático.

Aqui fora, buzinas, notificações e o cheiro indeciso da noite.

Alguém comenta o final como se comentasse a própria vida:

— Eu teria feito diferente.

Sempre teríamos feito diferente.

Um casal discute baixinho se o amor do filme era exagero ou coragem.

Um adolescente finge indiferença, mas procura no celular a música que tocou na última cena.

Uma senhora ajeita o casaco e diz que no tempo dela os filmes eram mais lentos, e talvez fossem mesmo, porque as pessoas também eram.

À saída do cinema, ninguém sai inteiro.

Carregamos um pouco da luz projetada na retina, um diálogo que insiste em ecoar, uma lágrima que decidimos não enxugar até atravessar a porta.

A calçada é um tapete comum demais para quem acabou de salvar o mundo, morrer de amor ou descobrir o sentido da existência em 4K.

E, no entanto, atravessamos a rua.

O herói agora espera o ônibus.

A protagonista confere se o aplicativo de transporte aceitou a corrida.

O vilão talvez esteja ali na fila do estacionamento, tentando lembrar onde guardou o ticket.

À saída do cinema, o filme acaba, mas a vida continua sem trilha sonora, sem cortes, sem créditos finais.

E talvez seja isso o mais assustador: não há diretor gritando “ação”, nem alguém dizendo quando é hora de partir.

A gente improvisa.

E segue para casa com a estranha sensação de que algo mudou, não na cidade, não no trânsito, não no preço da pipoca, mas num lugar secreto e silencioso dentro do peito. Como se a tela tivesse nos devolvido um espelho.

E, por alguns segundos, a gente tivesse se reconhecido.

Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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