O curioso é que quase ninguém está realmente ouvindo ninguém. Cada lado fala alto, mas escuta pouco. E quando o diálogo desaparece, qualquer debate vira guerra.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 15/03/2026
Estão invadindo o mundo feminino
Lin Quintino
Há uma sensação estranha no ar, como quando alguém entra em uma casa sem bater na porta. Não é exatamente um estrondo — é mais um deslocamento silencioso de móveis, como se alguém estivesse mudando as coisas de lugar enquanto ainda estamos dentro da sala.
Muitas mulheres têm dito isso em voz baixa, às vezes com medo de parecer exagero: estão invadindo o mundo feminino.
O mundo que sempre foi feito de experiências muito concretas — o corpo que sangra, o medo da rua à noite, a memória de tantas lutas para poder trabalhar, votar, estudar, decidir. Um mundo construído lentamente, entre avanços e cicatrizes.
De repente, surgem novas discussões, novas identidades, novas palavras. E junto com elas, um debate que atravessa mesas de jantar, universidades, redes sociais e grupos de amigas.
Algumas mulheres sentem que aquilo que sempre foi vivido como experiência feminina está sendo diluído. Outras acreditam que o feminino pode ser mais amplo, mais diverso, mais aberto.
Entre uma posição e outra, há tensão. Há perguntas. Há desconforto.
O curioso é que quase ninguém está realmente ouvindo ninguém. Cada lado fala alto, mas escuta pouco. E quando o diálogo desaparece, qualquer debate vira guerra.
Talvez a sensação de invasão não seja apenas sobre quem entra, mas sobre a falta de conversa sobre como entrar.
O mundo feminino nunca foi um território simples. Sempre foi campo de disputa, de reinvenção, de dor e de conquista.
Talvez o que esteja acontecendo agora não seja exatamente uma invasão, mas um momento confuso da história — desses em que ninguém ainda sabe ao certo quais serão as novas fronteiras.
E enquanto isso, muitas mulheres seguem tentando proteger algo que conhecem profundamente: a própria experiência de existir no mundo como mulher.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.






