Especialista em visão computacional, Aguinaldo Passos argumenta que estamos no limiar de uma transformação silenciosa, comparável à eletricidade e à internet: ambientes físicos que aprendem e interpretam o que acontece dentro deles

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 16/03/2026
Durante décadas, quando se falava em infraestrutura, a imagem era invariavelmente a mesma: concreto, aço e fios. Rodovias rasgando o interior do país. Torres de transmissão enfileiradas no horizonte. Cabos de fibra óptica cruzando oceanos. Coisas que se tocam, que pesam, que ocupam espaço.
Mas, segundo o especialista em visão computacional Aguinaldo Passos, essa definição está prestes a se expandir de forma definitiva. “Nos últimos anos, tenho observado algo que me intriga e que começa a parecer inevitável: está emergindo uma nova camada de infraestrutura que não se vê, não se pesa e não ocupa nenhum espaço físico. É cognitiva”, afirma. “E vai mudar tão profundamente o modo como o mundo funciona quanto a chegada da eletricidade ou da internet.”
O shopping que “enxerga” e o hospital que “aprende”
Para tornar o conceito menos abstrato, Passos propõe um exercício simples: imaginar um shopping center num domingo à tarde. Milhares de pessoas circulam simultaneamente — compram, esperam, conversam, desviam umas das outras. Toda essa movimentação carrega informação. Padrões de fluxo, concentrações incomuns, comportamentos fora do esperado.
“Durante décadas, tudo isso simplesmente evaporou. Aconteceu e desapareceu, sem deixar rastro analítico nenhum”, observa.
Hoje, esse cenário está mudando de forma concreta. A combinação entre inteligência artificial, visão computacional e análise comportamental está tornando possível algo que antes pertencia ao campo da ficção científica: ambientes físicos que entendem o que acontece dentro deles. “Não apenas gravam, interpretam. Não apenas registram, aprendem. Um sistema assim não é uma câmera mais sofisticada. É uma mudança de categoria.”
O potencial dessa tecnologia se revela com mais clareza em ambientes de alta complexidade. “Pense num hospital. O nível de complexidade operacional que acontece simultaneamente dentro de um pronto-socorro é descomunal”, exemplifica. “Pacientes chegando em estados diferentes, equipes tomando decisões em frações de segundo, recursos sendo alocados ou desperdiçados dependendo do momento. Qualquer gestor de saúde sabe que boa parte dos erros e ineficiências não vem de falta de competência, vem de falta de percepção situacional. De não enxergar o que está acontecendo no corredor ao lado enquanto você lida com o que está diante de você.”
Para Passos, a infraestrutura de percepção não resolve todos os problemas, mas começa a preencher exatamente esse vazio. O mesmo raciocínio, segundo ele, vale para escolas, aeroportos, centros de distribuição logística e cidades inteiras. “A questão não é mais se essa tecnologia será adotada, é quem vai construir a camada de inteligência que vai operar por baixo de tudo isso.”
O novo petróleo: dados do mundo físico
Do ponto de vista econômico e estratégico, Passos identifica um paralelo histórico significativo. “Estamos no começo de um ciclo parecido com o que aconteceu no início da internet comercial. Naquele momento, quem entendeu que dados digitais eram uma nova categoria de infraestrutura, e não apenas uma ferramenta operacional, construiu as maiores empresas do mundo nas décadas seguintes.”
Agora, argumenta, os dados físicos estão ocupando esse mesmo papel. Cada movimento dentro de um ambiente físico, cada interação, cada anomalia comportamental, tudo isso é dado. Dado que, até recentemente, não existia de forma estruturada. Dado que agora pode ser capturado, interpretado e transformado em inteligência operacional ou estratégica.
“Quem construir essa infraestrutura cognitiva para ambientes físicos não vai apenas vender tecnologia. Vai operar a espinha dorsal de como cidades, empresas e instituições tomam decisões no mundo real”, afirma.
O dilema ético que não pode esperar
O especialista reconhece, no entanto, que essa transformação vem acompanhada de perguntas sérias. “Privacidade, governança, os limites éticos do que significa observar comportamento humano em escala. Essas perguntas precisam ser feitas com rigor. Não dá para construir infraestrutura crítica sem construir junto os marcos que definem como ela pode e não pode ser usada.”
Mas alerta: “A tecnologia em si não vai esperar que a discussão termine para avançar. Ela já está avançando.”
Para Passos, o mais importante neste momento é reconhecer a natureza do fenômeno. “Estamos diante de uma mudança de paradigma real, não de uma tendência passageira nem de mais um ciclo de hype tecnológico. Ambientes físicos inteligentes não são o futuro distante. São o presente imediato de quem já começou a construir.”
O óbvio que ninguém vê chegar
O especialista conclui com uma reflexão sobre a natureza das transformações duradouras. “A tecnologia que realmente muda o mundo raramente é a que mais chama atenção quando aparece. É a que, daqui a dez anos, vai parecer tão óbvia que ninguém vai conseguir imaginar como funcionava sem ela.”
“Essa”, finaliza, “é a infraestrutura que está sendo construída agora. Invisível, cognitiva e absolutamente real.”

Aguinaldo Passos é especialista em visão computacional e sistemas de inteligência para ambientes físicos
Aguinaldo Passos, fundador e CEO da MarketView AI, plataforma de inteligência comportamental baseada em visão computacional e modelos multimodais para ambientes físicos. Especialista em visão computacional aplicada a ambientes reais, especialista em inteligência comportamental por vídeo e áudio, especialista em infraestrutura de decisão baseada em dados visuais. Formação em Tecnologia da Informação, curso superior não concluído.
Criou a arquitetura proprietária da MarketView AI, sistema que interpreta padrões de comportamento humano em tempo real. Lidera estratégia tecnológica, desenvolvimento e expansão da empresa. Plataforma implementada em ambientes reais como varejo, shoppings e infraestrutura crítica. Apresentações para grandes empresas, aceleradoras e hubs de inovação no Brasil e exterior.
Desenvolveu uma camada de raciocínio sobre infraestrutura existente de câmeras, transforma dados brutos em inteligência operacional. Founder e CEO, contribuição original em IA comportamental, plataforma em operação e expansão comercial.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores






