Mercados/Negócios

OS EXCESSOS DO MERCADO IMOBILIÁRIO – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

Basta abrir uma rede social e lá está mais um “especialista” prometendo revolucionar a vida profissional do corretor em 24 horas.

OS EXCESSOS DO MERCADO IMOBILIÁRIO

Nilson Apollo Belmiro Santos – Creci 15673F – ES 13ª Região

Comprar um imóvel, em tese, deveria ser um dos momentos mais sólidos e seguros na vida de uma pessoa. Afinal, estamos falando do bem mais valioso que a maioria dos brasileiros terá a oportunidade de conquistar. No entanto, o que se vê hoje é um verdadeiro espetáculo de ilusionismo, onde o essencial fica em segundo plano e o acessório é transformado em protagonista.

O mercado imobiliário já é, por natureza, um universo denso. Ele é regido por uma verdadeira constelação de códigos, artigos, incisos, capítulos da lei, contratos que exigem leitura minuciosa e responsabilidades que não admitem margem para o achismo. É um campo técnico, jurídico e patrimonial. Mas, de uns tempos para cá, resolveu-se vesti-lo com as roupas de um circo de variedades.

Entramos na era do “pseudonovismo”. Tudo precisa ser glamourizado. Ao corretor, basta ser um profissional técnico, muitas vezes é empurrado para o papel de artista, de influenciador, de maestro de um espetáculo onde o que menos importa é o que realmente faz a diferença: a segurança jurídica, o conhecimento técnico, a transparência nas informações e a solidez do negócio.

O modismo tomou conta. Uma estética peculiar aqui, um café com aroma de madeira queimada ali, um atendimento com luzes de LED reguladas para a foto do Instagram acolá. O corretor aparece de calça curta, sapato sem meia, com um crachá pendurado em uma cordinha de couro artesanal, como se estivesse prestes a entrar para um elenco de reality show de decoração. Nada contra o estilo pessoal, mas tudo a favor da confusão quando o estilo tenta substituir a substância.

E como se não bastasse o espetáculo estético, ainda precisamos atravessar uma multidão interminável de ofertas de palestras, cursos, gurus e mentores que surgem a todo e qualquer clique. Basta abrir uma rede social e lá está mais um “especialista” prometendo revolucionar a vida profissional do corretor em 24 horas. A pergunta que fica é: quem são esses indivíduos? Qual a sua formação? Onde estão registrados? Qual a sua experiência real com o solo e a lei brasileira?

Há pouco tempo, tive a oportunidade, ou o infortúnio, de participar de uma “aula” ministrada por um desses personagens. Um sujeito que, sabe-se lá de fato quem era, vivia em uma ilha isolada em outro continente, vendendo uma suposta sabedoria importada. Falou, falou, falou, e ao fim de horas de parlapatices insossas e impertinentes para a realidade nacional, não disse absolutamente nada de útil. O clímax? O brinde: ele queria vender, em dólares, o tal “pulo do gato”, que, convenientemente, não fora dito durante todo o discurso vazio.

Enquanto isso, o profissional que realmente busca qualificação séria encontra, muitas vezes ignorada, uma estrutura de excelência disponível nos próprios CRECIs e no COFECI. São dezenas de cursos, formações e atualizações técnicas que constituem o corretor de forma sólida, com conhecimento aplicável à sua região e à sua realidade. Mas esses cursos, por serem sérios e institucionais, não vêm acompanhados de fogos de artifício, nem de promessas milagrosas. E, no mundo do espetáculo, o que é sólido acaba ofuscado pelo que é barulhento.

Agora, entre nós, vamos ao que realmente importa: como estamos em relação ao que de fato está transformando o mercado? Onde estão as imobiliárias, incorporadoras e construtoras que estão treinando seus profissionais para lidar com blockchain? Quem está preparando os corretores para a tokenização de ativos? Quem está, de fato, investindo em capacitação real sobre inteligência artificial aplicada à atividade imobiliária?

Não me refiro a vídeos de três minutos no Instagram, nem a “mentorias relâmpago” que prometem o que nem mesmo os maiores especialistas do mundo conseguem entregar. Falo de conhecimento técnico, estruturado, que permita ao corretor navegar com segurança pelas novas tecnologias sem perder de vista o essencial: a solidez do negócio e a proteção do patrimônio do cliente.

Não escrevo isso com a ilusão de que algo vai mudar da noite para o dia. Sei que o espetáculo tende a continuar. As luzes seguirão ofuscando a substância. Os gurus continuarão vendendo promessas em dólares de suas ilhas paradisíacas. Mas meu apelo, meu chamado, é dirigido ao profissional deste lindo mercado — aquele que entende que sua função vai muito além de vender um sonho embalado em estética e frases de efeito.

É um convite ao despertar. Para que, de tempos em tempos, você faça esse “back-up” na sua mente. Uma higienização do que é essencial e do que é ruído. Um retorno ao que realmente forma um bom corretor: conhecimento, honestidade e transparência.

Não se deixe levar pelo ilusionismo. O cliente que busca um imóvel não está atrás de um show; ele está atrás de segurança, de garantia, de um profissional que o conduza com integridade por um dos caminhos mais importantes da sua vida. Se você perder o foco, induzirá seu cliente a perdê-lo também. E isso, nenhum guru, nenhuma mentoria, nenhum curso em dólares será capaz de reparar.

O mercado imobiliário não precisa de mais mágicos. Precisa, urgentemente, de mais profissionais.

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