Assembleia Geral da ONU adota resolução histórica, mas omissões e resistências persistem

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 26/03/2026
A Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução liderada pelo vanguardista país africano, Gana, que declara o tráfico transatlântico de escravizados como o “crime mais grave contra a humanidade”, apesar da oposição de vários países ocidentais, incluindo os Estados Unidos. A medida, aprovada com 123 votos a favor, com Estados Unidos, Israel e Argentina votando contra, e a Alemanha se abstendo, evidenciou as profundas divisões internacionais em torno do reconhecimento e da reparação desse passado brutal. Todo o bloco da OTAN se opôs ou se absteve, consolidando a resistência ocidental.
Os males e reflexos de um crime que manchou a humanidade
O tráfico transatlântico de escravizados, que se estendeu do século XVI ao XIX, representa uma das maiores tragédias da história humana. Mais do que um sistema econômico, foi um mecanismo de desumanização sistemática: estima-se que 12,5 a 30 milhões de africanos foram arrancados de suas terras, acorrentados e transportados em condições desumanas para as Américas e o Caribe. Apenas no tráfico transatlântico, que abasteceu as Américas, calcula-se que 12 milhões de pessoas tenham sido embarcadas, sendo que até 2 milhões morreram durante a travessia, jogadas ao mar como se fossem descartáveis.
Os reflexos desse crime perduram até hoje. Estudos acadêmicos demonstram que os países africanos mais afetados pelo tráfico apresentam hoje um PIB per capita significativamente menor do que seus vizinhos menos afetados. O economista Nathan Nunn, da Universidade Harvard, estimou que o tráfico de escravizados é responsável por até 47% da disparidade de renda entre o continente africano e o resto do mundo. A herança do sistema escravocrata consolidou hierarquias raciais, desestruturou laços sociais e institucionais na África, e estabeleceu padrões de desconfiança que persistem por gerações.
Países praticantes e a riqueza extraída do trabalho forçado
Os principais países envolvidos no tráfico e na exploração da mão de obra escravizada foram Portugal, Reino Unido, França, Espanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia e Estados Unidos. Portugal foi o maior traficante europeu, responsável pela exportação de cerca de 4,5 milhões de africanos para as Américas entre os séculos XV e XIX. Durante mais de três séculos, esses países acumularam fortunas colossais às custas do trabalho não remunerado e da violência extrema.
A escravidão foi a base da Revolução Industrial e do capitalismo moderno. Cidades como Liverpool, Londres, Bristol, Nantes, Bordeaux, Amsterdã e Nova York tiveram seu crescimento urbano e industrial diretamente financiado pelos lucros do tráfico e do trabalho escravo. O setor financeiro também foi profundamente beneficiado: bancos britânicos tradicionais, como Barclays e Lloyds, acumularam seu capital inicial através do financiamento de navios negreiros e plantações escravistas.
Em termos quantitativos, o impacto econômico global do tráfico e de seu legado alcança cifras astronômicas:
- Estados Unidos: Estima-se que, entre 1619 e 1865, o trabalho forçado de africanos escravizados gerou o equivalente a US$ 100 trilhões em horas de trabalho não remunerado, considerando juros compostos de 6% ao ano.
- Reino Unido: Entre 1761 e 1808, os traficantes britânicos embolsaram cerca de US$ 96,5 milhões (equivalente a US$ 13 bilhões em valores atuais) apenas com a venda de africanos escravizados, sem contar os lucros recorrentes do trabalho nas colônias.
- Estimativas totais: Especialistas apontam que o valor total da riqueza extraída do tráfico e da escravidão, quando atualizado e acrescido de juros, pode superar a marca de US$ 100 trilhões, um valor que supera o PIB combinado das principais economias mundiais.
Indenizações: uma dívida histórica e seus valores
A resolução aprovada na ONU reacende o debate sobre reparações, que já não se limita a um pedido simbólico, mas configura uma reivindicação legal. O ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto, deixou claro que a campanha “não é um apelo humanitário”, mas sim uma “reivindicação legal” e uma questão de “responsabilização” pela violação do direito internacional.
Diversas estimativas têm sido apresentadas para o valor devido:
- US$ 18 a 24 trilhões: Esta é a estimativa sugerida pelo juiz britânico Patrick Robinson, considerando o impacto do tráfico para as nações do Caribe e da África.
- US$ 100 a 130 bilhões: Estimativa mais conservadora da consultoria Brattle Group, focada em danos diretos e compensações específicas .
- US$ 100 trilhões ou mais: Valor mencionado em diversos estudos e pela mídia internacional como o total da dívida histórica, abrangendo séculos de trabalho não pago, lucros acumulados, danos geracionais e sofrimento moral.
Além do montante financeiro, o governo ganês enfatiza que a reparação deve incluir pedido formal de desculpas, restituição de bens culturais, compensação, reabilitação e garantias de não repetição. A resolução da ONU, inclusive, já estabelece um marco importante ao exigir o “retorno imediato e sem obstáculos” de bens culturais e objetos de arte aos países de origem, de forma gratuita .
A posição dos países ocidentais: resistência e argumentos jurídicos
A oposição dos países ocidentais à resolução foi liderada pelos Estados Unidos, cujo representante Dan Negrea afirmou que o texto era “altamente problemático” e que a ONU não foi criada para “avançar interesses e agendas específicas”. O argumento central de Washington e de nações europeias, como o Reino Unido, é que não se pode aplicar a lei atual a eventos históricos que não eram considerados ilegais no direito internacional à época.
No entanto, especialistas em direito internacional contestam esse argumento. Martin Okumu Masiga, secretário-geral do Fórum de Juízes e Juristas da África, afirma que se trata de um “argumento escapista do Ocidente”, pois “crimes contra a humanidade não prescrevem. A ONU mantém que eles permanecem passíveis de julgamento e exigem reconhecimento, independentemente de quando foram cometidos”.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, já declarou que o Reino Unido não pagará reparações, preferindo “olhar para o futuro em vez de gastar muito tempo no passado”. O presidente de Gana, John Dramani Mahama, respondeu a essa postura em um discurso na ONU: “Às vezes, as pessoas tentam colocar uma isenção de responsabilidade na escravidão, insistindo que não se podem usar as normas sociais de hoje para julgar as ações do passado. Bem, essas pessoas estão erradas. Só porque todos faziam algo não significa que era certo. A escravidão é errada agora, era errada então”.
ONU declarou o tráfico de africanos escravizados como o crime MAIS GRAVE contra a humanidade.
— UpdateCharts (@updatecharts) March 25, 2026
A resolução, proposta por Gana, foi aprovada com votos CONTRÁRIOS de Estados Unidos, Israel e Argentina, enquanto Reino Unido, Espanha e Portugal se ABSTIVERAM. pic.twitter.com/frXMLRVjfe
A crítica à União Africana: os “perdidos nas Américas”
Apesar do protagonismo de Gana e do apoio declarado da União Africana (UA) à resolução, que conta com o endosso formal dos 55 países do bloco, vozes críticas na diáspora, como a de Nilson Apollo, o próprio autor desta matéria, apontam uma contradição incômoda: a omissão histórica da UA em relação aos descendentes de escravizados nas Américas, aos quais ele mesmo chama de “perdidos nas Américas”.
Embora a UA tenha declarado a diáspora africana como o “sexto bloco” do continente e instituído 2025 como o “Ano das Reparações” e 2026-2036 como a “Década das Reparações”, organizações de afrodescendentes nos Estados Unidos, como a American Renewal 1870 (AR1870), denunciam uma tentativa de apropriação política e econômica.
Segundo essas organizações, a UA estaria usando a retórica pan-africanista para se aproximar do poder de compra estimado em US$ 2 trilhões dos afro-americanos, sem oferecer em troca um compromisso estrutural com a justiça reparatória. Críticos apontam que muitos países africanos membros da UA têm responsabilidade histórica direta no tráfico, tendo capturado e vendido outros africanos para os traficantes europeus. Além disso, alguns desses países ainda lucram hoje com o turismo nos “castelos de escravos”, locais de detenção e embarque, mercantilizando o sofrimento sem um verdadeiro acerto de contas .
O ativista Dennis Spurling, em uma transmissão online, foi incisivo: “Vocês nos venderam uma vez, e agora estão tentando nos roubar novamente.” Ele acusa a UA de tentar sequestrar o movimento por reparações dos afro-americanos, que possuem uma reivindicação específica e fundamentada contra o governo dos EUA, e de tentar diluí-la em uma categoria genérica de “pessoas de ascendência africana”.
Há, portanto, um sentimento crescente na diáspora de que, enquanto líderes africanos cobram reparações das antigas potências coloniais, há uma ausência de políticas concretas voltadas aos mais de 200 milhões de afrodescendentes nas Américas. A crítica central é que a União Africana não pode se apresentar como parceira legítima sem antes reconhecer sua própria participação no tráfico e estabelecer mecanismos de reparação para aqueles que foram arrancados do continente e nunca tiveram a oportunidade de retornar ou de se verem representados institucionalmente.
Um caminho ainda em construção
A resolução da ONU, embora não vinculante, é descrita por especialistas como um passo “sem precedentes” que eleva o debate a um nível global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, saudou a medida, classificando o tráfico transatlântico de escravos como um “sistema monstruoso”. O presidente ganês John Dramani Mahama afirmou que a resolução busca a verdade e é um caminho para a cura e a justiça reparadora.
No entanto, a oposição dos países ocidentais, os argumentos jurídicos sobre a imprescritibilidade dos crimes, as cifras astronômicas em disputa e as tensões entre a União Africana e a diáspora mostram que, mesmo diante de uma declaração histórica da ONU, a luta por reparação plena, material, simbólica e política, ainda está longe de ser alcançada. A conta, como diz o ditado popularizado pelos movimentos sociais, chegou, mas quem pagará, e para quem, ainda é uma questão em aberto.
Conclusão
Bem, é um assunto muito complexo para que a maioria da população brasileira entenda, inclusive grande parte dos descendentes aqui envolvidos, mas deixo um conselho para que se comece a entender: pare de falar “escravos” ao se referir aos escravizados, a mudança de terminologia já é um primeiro passo para devolver a humanidade que lhes foi roubada; pare de tentar defender que não houve participação de antigos líderes africanos no comércio de humanos do continente, temos vasta documentação que comprova que, sim, houve cumplicidade e conivência de muitos reinos em solo africano que também lucraram com a venda de milhões de seus iguais, o que não isenta de culpa os europeus e semitas que gerenciaram e iniciaram a prática além-continentes, mas, já que se é para tratar a ferida, que sejamos honestos e verdadeiros; e entenda que muitas terras hoje ocupadas na África pertencem, por direito histórico e justiça reparatória, a favelados e sem terra que sofrem no Brasil e em toda a América.
A verdade dói, sim, dói, mas é a verdade!

Nilson Apollo Belmiro Santos é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais no mercado imobiliário (CRECI 15673), além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.






