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Quando queimam uma biblioteca – Por Paulo Siuves

“Era uma biblioteca, sim. Mas era também uma ideia de cidade.”

Quando queimam uma biblioteca

Por Paulo Siuves

Há seis anos, eu passava de moto pela Avenida Silva Lobo, com minha esposa na garupa, quando vimos livros espalhados por uma praça no bairro Nova Suíça. Parei sem pensar muito. Havia ali uma cena improvável: no meio da praça, entre árvores, bancos e a pressa de uma tarde qualquer, havia uma biblioteca.

Não uma biblioteca cercada por paredes, catracas, crachás ou silêncio obrigatório. Era uma biblioteca a céu aberto. Os livros estavam ali, ao alcance da mão, sustentados por um tipo raro de confiança. Todos os dias, Klinger Douglas os recolhia, organizava e depois os devolvia à praça.

Parei. Olhei. Filmei.

Numa cidade que nos ensina, todos os dias, a desconfiar — a trancar portões, erguer muros, instalar câmeras e esconder o que tem valor — aquela cena destoava. Ali, alguém havia decidido fazer o contrário: colocar milhares de livros no meio da rua e acreditar que as pessoas seriam capazes de cuidar deles.

A Casa do Saber nasceu dessa aposta.

Seu criador, Klinger Douglas, conhece como poucos a parte mais dura da cidade. E talvez exatamente por isso tenha compreendido algo que muitos de nós esquecemos: há pessoas que precisam de comida, de abrigo e de trabalho, mas há também quem precise, desesperadamente, de um livro, de uma conversa, de um lugar onde ainda seja possível existir sem ser tratado como problema.

Durante anos, aquela pequena biblioteca acolheu, reuniu e deu aos livros uma função menos decorativa e mais urgente. Ali, o livro deixava de ser objeto de estante e voltava a circular — passava da mão de um aposentado para a mochila de um estudante, seguia para a sacola de uma diarista, era folheado por um menino enquanto, ao lado, alguém conversava sobre política, futebol ou solidão.

Era uma biblioteca, sim. Mas era também uma ideia de cidade.

Por isso, quando soube que a Casa do Saber havia sido incendiada novamente, não senti apenas tristeza. Senti vergonha.

Há algo de particularmente brutal em incendiar uma biblioteca. Não apenas pelo que se perde, mas pelo que se interrompe. Naquela praça, onde os livros estavam ao alcance de todos, alguém decidiu que eles não deveriam mais estar ali.

A Casa do Saber já havia sobrevivido a um incêndio. Já havia resistido ao abandono, à indiferença e até à burocracia. Sobreviveu porque havia gente disposta a reconstruí-la.

Agora será preciso reconstruí-la outra vez.

E talvez esse seja o ponto mais importante. A destruição é rápida. A reconstrução, ao contrário, é lenta, repetitiva e quase sempre anônima. Ela depende de quem doa um livro, de quem carrega uma tábua, de quem empresta uma furadeira, de quem passa a notícia adiante.

Depende, sobretudo, de que não aceitemos como normal viver numa cidade em que é mais fácil queimar uma biblioteca do que mantê-la de pé.

A frase de Klinger continua a mesma: “Cultura é na praça, o livro aqui é de graça.”

Depois do incêndio, ela deixou de ser apenas uma frase bonita. Tornou-se um teste.

Se acreditamos mesmo nisso, então não basta lamentar diante das cinzas. É preciso reconstruir a biblioteca. Não para devolver a Klinger aquilo que lhe tiraram, mas para devolver à cidade a ideia de cidade que ela quase perdeu.

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