Os monstros quase nunca mostram os dentes. Sentam-se ao meu lado, escutam tudo o que tenho a dizer e concordam com cada palavra.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 13/07/2026
Paulo Siuves
Ninguém sabe onde, dentro de mim, fica esse lugar.
Não aparece em mapas. Não há placas indicando a entrada, nem alguém que possa dizer quantos eus vivem por lá. Alguns juram que ele nem existe. Não discuto. Aprendi que certos territórios desaparecem justamente para quem nunca precisou encontrá-los.
Infelizmente, conheço o caminho.
Nunca saio à sua procura. Ainda assim, em alguns dias, a estrada se abre sozinha diante de mim.
Percebo primeiro no corpo.
O sono deixa de descansar. A pele se inquieta. A respiração muda de ritmo. Um silêncio viscoso cobre as coisas mais simples, como se o mundo inteiro resolvesse falar em voz baixa.
É quando avisto a fronteira.
Ali ninguém levanta a voz.
O vento passa devagar.
As águas parecem imóveis há séculos.
As árvores oferecem sombra o suficiente para quem já não deseja caminhar.
Os monstros quase nunca mostram os dentes. Sentam-se ao meu lado, escutam tudo o que tenho a dizer e concordam com cada palavra.
Há muito tempo dei um nome àquele lugar.
Matancã.
Lá moram versões de mim que ainda sabem meu nome.
Uma passa os dias dobrando antigas decepções, como quem guarda roupas que nunca mais voltará a vestir.
Outra permanece olhando um horizonte de onde ninguém regressa.
Há uma que cultiva ofensas como quem rega um jardim.
Outra conhece todas as razões para desistir e as recita com a serenidade de uma oração.
Quando chego, nenhuma delas se espanta.
Recebem-me como um morador que apenas demorou a voltar.
Talvez esse seja o maior perigo de Matancã.
Ela nunca me expulsa.
Nunca me ameaça.
Nunca exige nada.
Em Matancã ninguém me pede coragem.
Ninguém espera que eu recomece.
As casas parecem dizer que posso descansar apenas mais um pouco.
Os caminhos nunca terminam; apenas deixam de levar a algum lugar.
Já estive perto de construir uma casa ali.
Quase descarreguei minhas malas.
Quase aceitei que aquele silêncio seria suficiente para o resto da vida.
Mas sempre acontece alguma coisa.
Às vezes uma conversa.
Às vezes um livro.
Às vezes uma oração dita sem fervor.
Às vezes uma lembrança.
Às vezes apenas o sol atravessando a janela como se ignorasse completamente a escuridão que eu carregava.
Não importa o que seja.
Importa que ainda exista.
Então volto.
Nunca volto inteiro.
O barro demora a sair dos sapatos.
A pele continua lembrando o caminho.
O corpo leva alguns dias para acreditar que já foi embora.
Quando regresso, abro todas as janelas.
A luz nunca destruiu Matancã.
Ela apenas impede que eu esqueça onde termina aquele território e onde recomeça minha casa.
Porque continuo conhecendo o caminho.
Reconheço o cheiro dos pântanos.
Reconheço o silêncio.
Reconheço a voz mansa das suas ruas.
Às vezes até reconheço, com vergonha, a vontade de permanecer.
Mas Matancã não é minha pátria.
É apenas o lugar que aprendi a visitar sem jamais aceitar como endereço.

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






