Dentro do café, os vidros embaçados misturavam o calor do pão com o vapor dos silêncios.

Jornal Clarín Brasil JCB News – Brasil 10/08/25
Uma Manhã Fria de Agosto
Lin Quintino
A cidade acordou cinza, como quem ainda hesita entre o sono e a obrigação. A névoa subia preguiçosa dos telhados, e os carros passavam lerdos, como se soubessem que era inútil apressar o tempo. Agosto sempre teve esse gosto de intervalo, não mais inverno, ainda não primavera.
Na esquina da padaria, o rapaz do jornal estendia o braço magro para distribuir manchetes que ninguém lia. Os celulares tinham engolido as letras impressas, mas ele persistia, como um guardião das notícias esquecidas. Um cão tremia debaixo do banco da praça, enrolado em si mesmo, olhos fechados para o mundo que insistia em seguir.
Dentro do café, os vidros embaçados misturavam o calor do pão com o vapor dos silêncios. Casacos fechados até o pescoço, mãos segurando xícaras como quem segura um tempo antigo. Duas senhoras conversavam baixinho sobre as dores do reumatismo, os netos que só aparecem no Natal, e a solidão que se aquece com lembranças.
Mais adiante, um menino tentava soltar pipa num céu sem vento. Insistia, corria, tropeçava, a linha esticada como uma promessa de liberdade. Não voava, mas ele sorria mesmo assim, como se só o gesto já bastasse.
E ali, entre o sopro da cidade e o respiro das pessoas, aquela manhã fria de agosto parecia segredar algo: que a beleza, às vezes, está nas coisas que não dão certo, nos voos que não acontecem, mas deixam a gente com o coração mais leve só por tentar.
Porque há dias em que viver é isso: esquentar as mãos no bolso, puxar o cachecol até o nariz e seguir, mesmo sem Sol, mesmo sem pressa, mesmo sem certeza — só para não deixar o dia passar sozinho.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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