Talvez a grande coragem da vida seja essa: reaver em nós o que deixamos para trás. Recuperar o que fomos antes de sermos moldados. Resgatar a autoria sobre a própria história.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 17/12/2025
Originais ou Cópias
Por Lin Quintino
Dizem que o mundo começa quando abrimos os olhos pela primeira vez , um clarão, um susto, um grito que não sabemos ainda chamar de vida. Nessa primeira dobra do tempo, somos inéditos. Uma promessa de caminho que ainda não existe, uma inquieta faísca que não sabe nada sobre mapas, normas ou moldes. Nascemos originais: inteiros, estranhos, livres.
Mas é curioso como, ao longo dos anos, vamos sendo gentilmente editados. Primeiro pela família, que nos ensina as palavras certas para caber na casa. Depois pela escola, que nos treina a sentar direito, a levantar a mão, a escrever dentro das linhas. E há também a rua, essa grande oficina de formação, onde aprendemos que é preciso um certo tipo de riso, um certo tipo de coragem, um certo tipo de medo para sobreviver. A cada passo, uma marca. A cada escolha, uma poda.
Quando percebemos, já decoramos gestos que não são nossos, opiniões herdadas, sonhos que compramos prontos. Vamos nos encaixando em caixas, ajustando as arestas, afinando a voz até ela se parecer com tantas outras. É quase imperceptível: um dia você acorda e percebe que já não sabe se aquilo que deseja é de fato seu ou se é apenas o eco de alguém.
E, ainda assim, há sempre uma brecha. Um canto da alma que insiste em permanecer desalinhado, rebelde, luminoso. É o pedaço original que não morreu, apenas cochilou. Ele desperta em pequenos instantes: numa música que faz o peito bater diferente; numa viagem em que o desconhecido reacende a curiosidade; num amor que desarruma as certezas; numa dor que obriga a repensar o caminho.
Talvez a grande coragem da vida seja essa: reaver em nós o que deixamos para trás. Recuperar o que fomos antes de sermos moldados. Resgatar a autoria sobre a própria história.
Porque, se é verdade que “nascemos originais e morremos cópias”, também é verdade que, entre um extremo e outro, existe um intervalo imenso um território inteiro onde podemos escolher, aqui e ali, devolver a nós mesmos a própria voz.
No fim, talvez a pergunta não seja o que copiamos, mas o que ainda podemos recuperar do nosso início. E, se ouvirmos com atenção, talvez descubramos que o original nunca nos deixou: apenas nos espera, pacientemente, na dobra secreta dos dias.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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