Meu tio Joãozinho (in memoriam), irmão da minha mãe, sentou praça na Polícia Militar no início dos anos 70

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 13/01/2026
*Esta é uma obra de ficção.
Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.*
Histórias de Ônibus: O Bilhete Amassado
Paulo Siuves
Meu tio Joãozinho (in memoriam), irmão da minha mãe, sentou praça na Polícia Militar no início dos anos 70. Era um homem cheio de histórias e gostava de aterrorizar a gente quando criança. Tio Joãozinho vivia dizendo que papel do chão não se pega, ainda mais quando não se sabe de onde veio. Na época, a gente achava que era só mais uma mania dele.
Ele contava que, quando voltava do quartel naquela época, ainda se usavam fichas de plástico ou bilhetes de papel para pagar a passagem de ônibus. Entre os cobradores, existia uma superstição: nunca guardar bilhete amassado na gaveta. Diziam que dava azar, que o carro podia quebrar ou a viagem atrasar.
Tio Joãozinho jurava que essa história tinha sido contada por um cobrador muito amigo seu, daqueles antigos, que pareciam conhecer todos os segredos da madrugada. Segundo ele, certa noite, na última caçambada, um passageiro entrou apressado e entregou ao cobrador um bilhete tão amarrotado que parecia ter passado semanas esquecido no fundo de um bolso.
O cobrador, cansado, aceitou sem comentar e jogou o papel na gaveta.
A viagem seguiu normalmente até que, no meio do trajeto, a grande máquina de conduzir pessoas simplesmente apagou. O motor morreu, as luzes se apagaram e um silêncio estranho tomou conta do coletivo.
O motorista tentou dar a ignição, o que hoje chamaríamos de dar a partida no veículo, mas não conseguiu. Enquanto ele descia para verificar o problema, o cobrador, ainda calmo, abriu a gaveta para conferir o dinheiro, as fichas e organizar a féria.
Foi então que percebeu que o bilhete amassado não estava mais lá.
A tranquilidade virou desconforto. Ele procurou dentro da gaveta, depois no chão, nos próprios bolsos e, por fim, no banco onde o passageiro havia se sentado. O homem também não estava mais no ônibus. Nenhum dos passageiros lembrava de tê-lo visto descer em ponto algum.
O motorista voltou, se benzeu discretamente e disse que havia avisado que bilhete amassado não se guardava na gaveta.
Poucos minutos depois, sem que ninguém mexesse em nada, o motor voltou a funcionar como se nada tivesse acontecido. O ônibus seguiu viagem.
O cobrador, segundo meu tio, nunca mais aceitou bilhete amassado.
Ele dizia também que, se você encontrar um bilhete velho e amarrotado no chão, perto da roleta, é melhor deixar lá. Pode ser só lixo…
ou pode ser o passageiro invisível viajando na última caçambada.
Paulo Siuves

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






