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O dia – Por Lin Quintino

Amanhã, talvez, eu consiga viver com menos pressa e mais presença

O dia 

Lin Quintino

O dia começa antes de mim.

O celular pisca, o mundo chama, mas o corpo ainda negocia existir. Há manhãs que pedem delicadeza, e não despertadores.

O café sobe como um pequeno ritual de fé. A fumaça desenha no ar o que eu não sei dizer. Tudo o que não cabe em frases mora ali, por alguns segundos, antes de desaparecer.

Na rua, as pessoas passam como parágrafos apressados. Ninguém se lê inteiro. Os olhos tocam o chão. O coração, em modo avião. Vivemos com medo de sentir demais e acabar atrasados para a próxima obrigação.

O tempo escorre. Não anda. Escorre.

E leva junto coisas que eu nem percebi que eram minhas.

Penso em alguém. Sempre há um alguém. A memória tem vocação para insistência. Ela volta com cheiro, com gesto, com uma palavra que não foi dita no tom certo. Algumas ausências fazem mais barulho do que qualquer presença.

À tarde, o silêncio pesa. Mas não é ruim. É um silêncio que pede escuta. Descubro que existir também é isso: aceitar o intervalo entre um pensamento e outro, entre quem fui e quem ainda não sei ser.

Anoitece devagar. As luzes da cidade fingem constelações. Fecho janelas, mas deixo frestas. Gosto da ideia de que nem tudo precisa estar resolvido para que a noite chegue.

Antes de dormir, recolho o que sobrou de mim pelo dia. Um cansaço manso. Uma esperança pequena, porém intacta. Amanhã, talvez, eu consiga viver com menos pressa e mais presença.

Talvez.

Lin Quintino

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