As inscrições começaram em 19 de janeiro e seguem até dia 23, com vagas em 136 instituições públicas de ensino superior

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 20/01/2026
Enquanto o debate nacional oscila entre crises conjunturais e visões de curto prazo, um mecanismo poderoso e contínuo opera nos bastidores, tecendo a base de um projeto de nação que o Brasil teima em não enxergar. O anúncio do maior Sistema de Seleção Unificada (Sisu) da história, com 274 mil vagas em 136 universidades públicas, é muito mais que um dado logístico. É a radiografia de uma revolução silenciosa: a ascensão sistemática do capital intelectual brasileiro como ativo estratégico fundamental.
A dimensão do Sisu 2026 é um monumento à capacidade de planejamento de longo prazo. Oferecer 73 mil vagas em licenciaturas, atreladas ao programa Pé-de-Meia, não é apenas preencher salas de aula. É uma engenharia social sofisticada que resolve múltiplas equações de uma vez: atrai talentos para a carreira docente com incentivo financeiro inteligente (R$ 1.050 mensais, parte capitalizada), garante um pipeline de professores qualificados e combate a escassez crônica que paralisa a educação básica. É política pública com DNA de startup: atrativo imediato, resultado futuro garantido.
As mudanças técnicas no edital revelam uma maturidade institucional ímpar. A utilização automática da melhor média do candidato nas últimas três edições do Enem é um avanço civilizatório. Remove a angústia da escolha errada, privilegia o desempenho máximo do estudante e reconhece que a capacidade intelectual não se resume a um único dia de prova. Junto aos ajustes nas ações afirmativas, isso constrói um sistema mais justo, transparente e eficiente – um ecossistema de mérito apoiado em bases sólidas.
Este é o verdadeiro “commodity” que o Brasil precisa explorar com urgência: a massa crítica de cérebros formados em escala continental. Cada vaga do Sisu é uma semente plantada em áreas estratégicas – das engenharias às ciências da vida, das humanidades às tecnologias digitais. Esses estudantes são a resposta à pergunta central sobre nosso futuro: quem irá operar as máquinas de uma eventual reindustrialização? Quem desenvolverá os insumos farmacêuticos para nossa soberania sanitária? Quem criará os algoritmos da nossa transformação digital?
No entanto, aqui reside o paradoxo brasileiro. Enquanto construímos uma das maiores e mais democráticas máquinas de produção de conhecimento do mundo (via Sisu, Enem, universidades públicas), falhamos grotescamente em conectar essa potência à economia real. Formamos engenheiros de qualidade mundial, mas não temos uma política agressiva para atrair fábricas de semicondutores. Graduamos químicos brilhantes, mas seguimos exportando óleo cru e importando gasolina. O sistema de ensino superior evolui com sofisticação ímpar; o projeto de país, não.
O Sisu 2026 prova que o Brasil sabe fazer a lição de casa na educação. Agora, a questão que se impõe é: teremos a coragem de escrever a próxima página? A que conecta essas 274 mil mentes em formação a um projeto nacional de sofisticação econômica. A que transforma o egresso de licenciatura em mestre de escolas técnicas que formarão operadores de indústria 4.0. A que direciona o talento descoberto pelo sistema para resolver os gargalos produtivos do país.
Não basta ter a porta de entrada. É preciso construir a casa. A janela de oportunidade do acordo com a União Europeia, por exemplo, será inútil se não houver quem a opere do lado de cá. O Sisu fornece os talentos. Cabe ao Estado e ao setor privado criar o ecossistema, parques tecnológicos, zonas econômicas especiais, marcos regulatórios modernos, que transformará esse potencial em progresso tangível.
Celebrar o recorde de vagas é necessário. Mas a verdadeira comemoração só virá quando o diploma conquistado via Sisu for também um passaporte para um Brasil que não apenas forma mentes brilhantes, mas também as emprega, valoriza e integra em um círculo virtuoso de desenvolvimento. A revolução intelectual está em curso. Falta agora a revolução econômica que a mereça.







