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No ponto de ônibus – Por Lin Quintino

As histórias se esbarram sem se tocar

No ponto de ônibus

Lin Quintino

O ponto de ônibus não é um lugar de espera. É um lugar de suspensão. Ali, o tempo não anda; ele se encosta no poste enferrujado e fica olhando os carros passarem, como quem perdeu o rumo.

A mulher ajeita a bolsa no colo pela terceira vez, mesmo sem ter mexido em nada. O rapaz confere o celular, mas a tela está apagada, talvez ele só queira confirmar que ainda existe. Um senhor conta os minutos pelos joelhos doloridos, porque o relógio já desistiu de colaborar.

O ônibus atrasa. Sempre atrasa. E ninguém se surpreende. A indignação, quando existe, é silenciosa, domesticada pelo hábito. Um suspiro aqui, outro ali. O vento folheia papéis velhos no chão, trazendo o cheiro morno de asfalto e pressa.

Do outro lado da rua, a vida anda no ritmo de quem não espera: gente atravessando fora da faixa, uma buzina impaciente, o vendedor de balas repetindo a mesma oferta como se fosse um mantra. No ponto, porém, tudo é intervalo. As histórias se esbarram sem se tocar. Ninguém sabe de onde vem o outro, nem para onde vai. E, curiosamente, isso não importa.

Quando o ônibus finalmente aparece, grande e cansado, há um pequeno ajuste coletivo de postura. Corpos se erguem, olhares se alinham, esperanças mínimas são acionadas. A fila se forma com uma ordem improvisada, meio ética, meio cansaço.

Alguém sobe primeiro, alguém reclama baixo, alguém fica para o próximo. O ponto volta a esvaziar-se de gente e a encher-se de silêncio. Em poucos minutos, tudo estará pronto para recomeçar.

Porque no ponto de ônibus a vida não acontece inteira. Ela passa, para, suspira, e segue, sempre em atraso.

Lin Quintino

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