As histórias se esbarram sem se tocar

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 10/02/2026
No ponto de ônibus
Lin Quintino
O ponto de ônibus não é um lugar de espera. É um lugar de suspensão. Ali, o tempo não anda; ele se encosta no poste enferrujado e fica olhando os carros passarem, como quem perdeu o rumo.
A mulher ajeita a bolsa no colo pela terceira vez, mesmo sem ter mexido em nada. O rapaz confere o celular, mas a tela está apagada, talvez ele só queira confirmar que ainda existe. Um senhor conta os minutos pelos joelhos doloridos, porque o relógio já desistiu de colaborar.
O ônibus atrasa. Sempre atrasa. E ninguém se surpreende. A indignação, quando existe, é silenciosa, domesticada pelo hábito. Um suspiro aqui, outro ali. O vento folheia papéis velhos no chão, trazendo o cheiro morno de asfalto e pressa.
Do outro lado da rua, a vida anda no ritmo de quem não espera: gente atravessando fora da faixa, uma buzina impaciente, o vendedor de balas repetindo a mesma oferta como se fosse um mantra. No ponto, porém, tudo é intervalo. As histórias se esbarram sem se tocar. Ninguém sabe de onde vem o outro, nem para onde vai. E, curiosamente, isso não importa.
Quando o ônibus finalmente aparece, grande e cansado, há um pequeno ajuste coletivo de postura. Corpos se erguem, olhares se alinham, esperanças mínimas são acionadas. A fila se forma com uma ordem improvisada, meio ética, meio cansaço.
Alguém sobe primeiro, alguém reclama baixo, alguém fica para o próximo. O ponto volta a esvaziar-se de gente e a encher-se de silêncio. Em poucos minutos, tudo estará pronto para recomeçar.
Porque no ponto de ônibus a vida não acontece inteira. Ela passa, para, suspira, e segue, sempre em atraso.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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