Brasil Cultura/Lazer Mercados/Negócios

O Ponto de Ônibus – Por Lin Quintino

Às seis da manhã, ninguém está ali porque quer

O Ponto de Ônibus 

Lin Quintino

Às seis da manhã, o ponto de ônibus ainda pertence aos que acordam antes do Sol. A cidade não desperta de uma vez; ela vai abrindo os olhos devagar, como quem não queria levantar da cama. O céu tem aquela cor indecisa entre a noite e o dia, e o vento da madrugada ainda segura um resto de frio nos braços.

No ponto, ninguém conversa muito. As pessoas carregam um silêncio cansado, desses que vêm junto com a marmita na mochila e o café tomado depressa demais. Uma mulher ajeita o uniforme de supermercado enquanto olha o relógio de minuto em minuto. Um rapaz cochila sentado no meio-fio, abraçado à própria mochila como quem teme perder até o pouco que tem. Um senhor lê as manchetes amassadas de um jornal antigo, porque notícia, para quem acorda cedo demais, quase nunca muda. O ônibus demora.

E quando demora, o tempo parece aumentar de tamanho. Cada farol ao longe cria esperança. Cada veículo que se aproxima faz os corpos se levantarem em automático, até descobrirem que não é aquele. Então todos voltam ao mesmo estado de resignação silenciosa.

Há também os sons: o barulho metálico da porta da padaria abrindo, o latido distante de um cachorro, o motor de uma moto cortando a avenida vazia. E o cheiro. Cheiro de café recém-passado vindo de alguma casa acesa. Cheiro de diesel. Cheiro de chuva antiga preso no asfalto.

Uma moça boceja sem vergonha. Um homem reclama baixinho do aumento da passagem. Outro diz que ontem o ônibus passou lotado e nem parou. Todos escutam, porque reclamar do transporte é quase uma forma de companhia. 

Às seis da manhã, ninguém está ali porque quer. Estão porque a vida exige horário. Porque o trabalho começa cedo. Porque o hospital marca exame antes das sete. Porque a faxina não espera. Porque a cidade foi construída para que alguns atravessem longas distâncias enquanto outros ainda dormem.

Quando o ônibus finalmente aparece dobrando a esquina, acontece um pequeno movimento coletivo: gente pegando bolsa, ajeitando roupa, acordando do próprio cansaço. Não há alegria, mas existe alívio. Como se sobreviver ao começo do dia já fosse, por si só, uma vitória discreta.

E então todos entram. O ponto fica vazio outra vez, esperando as próximas pessoas que chegarão amanhã, no mesmo horário, carregando o mesmo sono e a mesma pressa.

Lin Quintino

Curta,compartilhe e siga-nos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *