Quando alguém diz enchente, já não se pensa primeiro na
goiaba madura descendo pelo córrego ou na terra bebendo a chuva certa.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 17/06/2026
Antes desse mundo ficar cheio de calendário pendurado na parede, previsão
de tempo no rádio, na televisão e agora nesse trem de celular que avisa chuva
até sem a gente olhar direito pro céu, o povo antigo media o ano de outro jeito.
Media era no reparo.
O sujeito acordava cedo, punha o pé no terreiro e já sabia alguma coisa. Se a
terra cheirava diferente, se o vento vinha mais pesado, se o gado andava
inquieto, se a formiga mudava de rumo, se o céu fechava por detrás do morro,
aquilo tudo falava. Não falava com palavra, mas falava. E quem tinha vivido
bastante entendia.
Os antigos não diziam apenas “março”, “junho”, “setembro” ou “dezembro”.
Diziam: tempo das goiabas, tempo de São José, tempo de Santo Antônio,
chuva de caju, água de Santa Luzia, enchente do Menino Jesus. Era assim que
o ano ia ganhando corpo. Um mês não era só nome no papel. Era fruta
madura, santo no altar, terra molhada, enxurrada no caminho, semente
guardada, roça esperando hora certa.
E quando falavam em enchente, nem sempre era essa palavra pesada que a
gente ouve hoje, cheia de tristeza, sirene, casa perdida e notícia ruim.
Enchente, para muita gente antiga, era também a cheia da época. A água
vindo no tempo dela. O córrego subindo, a terra bebendo, a fruta caindo de
madura, o quintal ficando doce de goiaba rachada no chão.
Tinha perigo, porque água nunca foi coisa de se afrontar. Mas tinha também
costume. O povo sabia que a natureza não pede licença, mas dá sinal. E era
nesses sinais que o povo da roça se fiava.
“Vai chover”, dizia um.
“Vai nada. Ainda não virou o vento.”
“Pois eu te digo: se essa nuvem dormir agarrada naquele morro, amanhã cedo
o caminho amanhece cortado.”
E muitas vezes amanhecia mesmo.
Não era adivinhação. Era convivência.
Esse calendário antigo das águas vinha mais ou menos assim. Em março,
chegava a enchente das goiabas, quando as grandes chuvas do verão já iam
se despedindo e as frutas maduras caíam no chão, rachadas de doce, levadas
por quintais, valas e córregos. Ainda em março, perto do dia 19, vinha a
enchente de São José, mais ligada à fé e à lavoura: chuva de bênção, de
esperança, de terra confirmando força para o plantio. Em junho, por volta de
Santo Antônio, podia vir uma chuva de virada, comum em certas regiões e
inesperada em outras, misturada a frio, promessa, fogueira e festa. Depois da
secura, entre setembro e outubro, vinha a chuva de caju, primeira água para
baixar o pó, limpar a castanha, ajudar o fruto a vingar e avisar que a terra ainda
respirava. Em dezembro, Santa Luzia abria as águas do quase-natal. E, mais
adiante, o Menino Jesus trazia a enchente de fim de ano, água de
encerramento e recomeço, lavando caminho, quintal e esperança.
Para a gente antiga, principalmente aquela criada em beira de rio, fundo de
vale, sítio, roça ou povoado pequeno, esses nomes não eram enfeite de
conversa. Eram serventia. Serviam para plantar, colher, esperar, prevenir,
guardar semente, mudar criação de lugar, limpar rego, ajeitar cerca, escolher a
hora de mexer na terra.
O sujeito podia não saber explicar bonito, mas sabia. Sabia de um saber
juntado aos poucos, no couro da vida. Um ano ensinava uma coisa, o outro
confirmava, o outro desmentia um pouco, e assim a pessoa ia ficando
entendida do lugar. Não era estudo de escola, mas era estudo também. Estudo
de olho, de ouvido, de mão na terra, de chuva tomada no lombo.
Quando uma velha dizia “isso foi antes da enchente das goiabas”, ela não
estava só marcando uma data. Estava chamando de volta um tempo inteiro: a
fruta madura no quintal, o cheiro doce misturado com barro, o córrego cheio, os
meninos correndo descalços, a roupa demorando a secar, o céu baixo, a
cozinha enfumaçada, a fala dos vizinhos atravessando a cerca.
Quando alguém falava “chuva de caju”, vinha junto a lembrança da seca
cedendo. O pó baixava. As folhas pareciam respirar de novo. O chão, que
andava duro, começava a amaciar. Era como se a terra desse um aviso: “ainda
estou viva”.
E quando chegavam as águas de Santa Luzia ou do Menino Jesus, já era outra
conversa. O ano estava se despedindo, mas não acabava seco por dentro. A
chuva vinha com jeito de lavagem, de promessa, de preparação. Molhava a
terra e, de algum modo, molhava também a esperança.
Talvez por isso doa tanto perceber o que aconteceu com a palavra enchente.
Ela não mudou apenas de uso. Mudou de destino. Antes, em muitas falas
antigas, podia anunciar uma cheia esperada, uma água de época, uma força
conhecida do ano. Hoje, em grande parte da nossa experiência, chega
carregada de medo. Quando alguém diz enchente, já não se pensa primeiro na
goiaba madura descendo pelo córrego ou na terra bebendo a chuva certa.
Pensa-se na sirene cortando a noite, na água entrando pela porta, no colchão
boiando dentro de casa, no documento perdido, no cachorro ilhado, na família
subindo para o telhado, no barranco cedendo, no resgate que demora, no
corpo que não volta.
A água continua sendo água. O que mudou foi o mundo que a recebe. A
enchente, que antes podia guardar alguma intimidade com o ciclo das águas,
passou a carregar também a imagem da tragédia: cidade despreparada,
moradia em risco, encosta ocupada por necessidade, córrego espremido pelo
concreto, mata retirada, poder público atrasado, pobreza deixada onde a água
sempre cobra passagem.
Por isso, lembrar a enchente das goiabas, a enchente de São José, a chuva de
caju ou as águas do Menino Jesus não é romantizar o passado, como se
antigamente não houvesse perda, medo ou destruição. É lembrar que existiu
outra relação com a água. Uma relação em que o perigo convivia com o
reconhecimento do ciclo; em que a chuva não era somente desastre, mas
também linguagem da terra.
Esses nomes antigos guardam uma saudade maior que a saudade pessoal.
Guardam a lembrança de um tempo em que o ano era lido pelos sinais do
mundo, e não apenas pelos alertas de emergência. Um tempo em que a água
ainda podia chegar com nome de santo, cheiro de fruta, promessa de plantio e
conversa de terreiro.
Talvez seja isso que comove: perceber que algumas palavras envelhecem
junto com as pessoas, mas outras são feridas pela história. “Enchente” foi uma
delas. Já quis dizer abundância, época, chegada das águas. Hoje, muitas
vezes, quer dizer perda.
Ainda assim, quando alguém mais velho diz “enchente das goiabas”, alguma
coisa resiste: um resto de quintal, um resto de roça, um resto de infância, um
resto de mundo em que a natureza, mesmo temida, ainda era escutada.
E quem escuta essas palavras com atenção percebe: não são apenas nomes
de chuva. São modos antigos de pertencer ao tempo.
Nota do autor: Texto originalmente produzido para a XIII Coletânea ALB/MG/RMBH
em Prosa e Verso — Volume XIII, da Academia de Letras do Brasil – Minas Gerais –
Região Metropolitana de Belo Horizonte, edição 2026.

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






