Às vezes sangra. Às vezes não sai nada. Às vezes sai demais, e o difícil não é começar, mas parar…

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 30/05/2026
A difícil arte de escrever
Lin quintino
Escrever não é sentar e alinhar palavras como quem organiza talheres numa gaveta. Quem olha de fora até acredita nisso, que basta ter uma caneta, um teclado, um pouco de silêncio e pronto: nasce um texto. Mas quem escreve sabe que não. Escrever é um tipo de inquietação que não se aquieta nunca.
Há dias em que a palavra vem fácil, quase oferecida, como fruta madura caindo no colo. E há dias, a maioria deles , em que ela se esconde. Fica atrás de pensamentos confusos, de lembranças que doem, de sentimentos que não sabem ainda o próprio nome. E então começa o verdadeiro trabalho: escavar. Escrever é cavar dentro de si com as mãos nuas.
Às vezes sangra. Às vezes não sai nada. Às vezes sai demais, e o difícil não é começar, mas parar. Porque o texto tem vida própria , ele cresce torto, desvia do que a gente planejou, insiste em dizer o que a gente tentou esconder. E há uma coragem silenciosa nisso tudo: a de continuar mesmo sem garantias.
Ninguém fala muito sobre o desconforto de não gostar do que escreveu. Sobre reler um parágrafo e sentir que ele não diz metade do que você sente. Sobre apagar páginas inteiras com a sensação de estar apagando pedaços de si. É uma arte ingrata, essa, que exige entrega e devolve dúvida. Mas, ainda assim, a gente volta.
Volta porque há algo em escrever que nos organiza por dentro. Porque, mesmo imperfeito, o texto é uma tentativa de entendimento — do mundo, dos outros, de nós mesmos. Escrever é, no fundo, um gesto de resistência: contra o esquecimento, contra o silêncio, contra tudo aquilo que tenta nos atravessar sem deixar nome. E talvez seja essa a parte mais bonita da dificuldade. Não é sobre escrever bem. É sobre escrever apesar. Apesar do medo, da falta de inspiração, da insegurança,
da vida acontecendo enquanto a gente tenta colocar ordem no caos.
A difícil arte de escrever não se aprende de uma vez.
Ela se vive, linha por linha,
erro por erro,
recomeço por recomeço.
Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.






