“Confesso que foi nesse momento que a cena começou a me incomodar de verdade”

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 16/03/2026
A ORAÇÃO QUE VIROU CONDENAÇÃO
Paulo Siuves
Numa manhã da última semana apareceu no meu celular um vídeo curto, desses que surgem sem pedir licença.
Um homem está sentado no chão, algemado. Pelas imagens, parece ter acabado de ser preso.
Outro homem, que está filmando, se aproxima e pergunta num tom aparentemente tranquilo:
— Você aceita uma oração?
O preso responde que sim.
Quem já conviveu com ambiente policial sabe que situações assim acontecem. Em momentos de tensão, de constrangimento ou de desgaste emocional, às vezes alguém recorre à fé como forma de consolo. Já vi acontecer. Às vezes é um gesto sincero. Outras vezes é apenas uma tentativa simples de lembrar que, mesmo numa situação de prisão, ainda estamos lidando com pessoas.
Mas não era isso que estava acontecendo ali.
O homem começa a “orar”, mas em vez de falar com Deus passa a invocar o belzebu. Pede que aquela alma seja recebida “pro quinto dos infernos”. Em seguida manda o homem algemado confirmar a oração dizendo “amém”.
Confesso que foi nesse momento que a cena começou a me incomodar de verdade.
Não apenas pelo deboche, mas pela forma como a linguagem religiosa era usada ali.
Em situações como aquela, oferecer uma oração costuma ser um gesto de consolo, um reconhecimento de que, mesmo sob custódia, ainda estamos lidando com alguém que continua sendo humano.
Transformar esse gesto em instrumento de escárnio não atinge apenas a pessoa algemada. Desfigura também o próprio sentido da fé que se pretende invocar.
Foi nesse momento que o preso reagiu.
— Tá repreendido.
O homem que estava “orando” então muda o tom e começa a dar conselhos:
— Você quer ir pro céu, né? Mas pra ir pro céu você tem que fazer o que presta. Tem que fazer o certo.
Logo depois começa a rir.
Ri com deboche.
Em seguida afirma que é bom demais ser polícia.
O vídeo é curto, mas deixa muita coisa no ar.
Não porque mostra uma prisão. Situações assim fazem parte do trabalho policial e acontecem todos os dias em qualquer cidade.
O que chama atenção ali é outra coisa.
O homem algemado está sob custódia do Estado e é exposto àquela encenação enquanto está sendo filmado. A partir desse momento, a relação entre os dois já não é uma relação comum entre cidadãos. Um exerce autoridade institucional. O outro está sob sua guarda.
É nesse contexto que a cena acontece.
A religião aparece ali não como gesto de fé, mas como instrumento de deboche. A promessa de oração vira armadilha. Aquilo que poderia representar compaixão acaba sendo usado para ridicularizar alguém que já está em posição de vulnerabilidade.
Talvez o detalhe mais revelador seja o riso.
Não é um riso nervoso. Não é um riso de constrangimento. É o riso de quem demonstra absoluta segurança na posição de autoridade que ocupa naquele momento.
A ideia de justiça que aprendemos a respeitar se baseia numa distinção simples: crime não é a mesma coisa que pecado.
Crime é assunto da lei.
Pecado é assunto da consciência.
Um juiz não decide o destino espiritual de ninguém. A justiça não julga a alma de uma pessoa. Julga apenas os atos que ela praticou.
A condenação prevista em lei recai sobre a conduta, não sobre o valor da pessoa como ser humano.
Mas às vezes essa fronteira parece se embaralhar.
A punição deixa de ser apenas aplicação da lei e passa a ganhar um tom de condenação moral. Não é mais apenas a ideia de que alguém cometeu um crime. Passa a ser a ideia de que aquela pessoa merece ser exposta, ridicularizada e reduzida ao que fez.
Talvez alguém veja essa cena e pense que o homem do vídeo merece ouvir aquilo.
Talvez alguém diga que foi apenas uma provocação ou uma piada.
Mas vale a pena fazer uma pergunta antes de rir junto.
O que acontece com a justiça quando a punição começa a falar a língua do inferno?
Porque a justiça, pelo menos em teoria, não foi criada para decidir quem é digno de salvação.
Foi criada para aplicar a lei e garantir que ela seja respeitada.
E essa diferença, que parece pequena, é justamente o que separa a justiça da vingança.
Assista o vídeo
No vídeo, não se vê a aplicação da lei.
Vê-se apenas alguém rindo com poder nas mãos.

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






