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Brincar de viver – Por Lin Quintino

“Outro dia, vi uma criança correndo atrás de uma bolha de sabão”

Brincar de viver

Lin Quintino

Têm dias em que viver parece coisa séria demais. Acordar cedo, cumprir horários, responder mensagens, pagar contas, tudo muito organizado, muito adulto, muito definitivo. Como se a vida fosse um relatório a ser entregue no fim do dia, sem rasuras. Mas, de vez em quando, algo escapa.

Outro dia, vi uma criança correndo atrás de uma bolha de sabão. Ela ria como se estivesse prestes a capturar o próprio mundo com as mãos. E quando a bolha estourou, inevitável, sempre inevitável, ela não chorou. Soprou outra. E outra. E outra. Como se já soubesse, desde sempre, que algumas coisas existem só para durar pouco mesmo.

Fiquei pensando quando foi que desaprendemos isso. Em que momento paramos de brincar de viver e passamos a viver como quem cumpre um roteiro rígido, sem espaço para improviso? Quando foi que errar deixou de ser parte do jogo e virou motivo de vergonha? Quando foi que esquecemos que recomeçar também pode ser leve?

Brincar de viver talvez seja isso: permitir-se não saber tudo, não controlar tudo, não vencer sempre. É rir de si mesmo quando tropeça, é inventar novos caminhos quando o antigo desmorona. É não levar tão a sério o que, no fundo, nunca esteve sob nosso domínio.

Brincar de viver é dançar na sala sem música, é mudar de planos no meio do caminho, é falar sozinho e responder também. É olhar o céu como quem vê pela primeira vez, mesmo que seja o mesmo céu de ontem.

A vida, no fundo, talvez nunca tenha deixado de ser um jogo. Fomos nós que esquecemos as regras mais simples: tentar, cair, levantar… e continuar. Como aquela criança com suas bolhas de sabão. Porque, no fim, viver não é segurar a bolha intacta. É soprar outra, mesmo depois que ela estoura, soprar outra e outra…

Lin Quintino

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