“NÃO ADIANTA nós ter PRESSA, é tudo no TEMPO de Deus.”

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 26/01/2026
Entre o tempo de Deus e o tempo da língua
Paulo Siuves
Recebi no WhatsApp, esta semana, uma imagem que é a cara do Brasil: uma ampulheta belíssima, dividindo uma cidade moderna e uma igreja rural, acompanhada da frase impactante: “NÃO ADIANTA nós ter PRESSA, é tudo no TEMPO de Deus.”
A arte visual é primorosa — uma metáfora eficaz do fluxo da vida, do tempo e da fé. A frase, porém, chamou minha atenção por outro motivo que, confesso, provoca certa “vergonha alheia”: o deslize gramatical. Pela norma culta, o correto seria “nós termos pressa” ou, de forma mais fluida, “a gente ter pressa”.
Esse pequeno “erro” abre um debate maior e recorrente: o uso da linguagem coloquial na comunicação, na mídia e na literatura. Nem todo desvio é descuido; muitas vezes, é escolha. Há autores consagrados que tensionaram deliberadamente a norma para alcançar efeito estético, identidade cultural ou verdade social — sem que isso represente ignorância ou falta de técnica.
Muitas obras do Modernismo e dos períodos seguintes, empenhadas na construção de uma identidade nacional, incorporaram o coloquialismo diretamente no corpo do texto, sem itálico ou aspas. Nesses casos, o “erro” deixa de ser falha e passa a ser projeto estético.
Em Macunaíma, de Mário de Andrade, essa escolha é fundacional. O romance utiliza regionalismos, sintaxes não normativas e desvios intencionais como expressão da diversidade linguística brasileira. O autor não buscava o português padrão, mas uma língua brasileira viva e oral.
Já em Capitães da Areia, de Jorge Amado, a linguagem dos meninos de rua de Salvador é reproduzida sem marcas gráficas justamente para preservar a verossimilhança social. Destacar artificialmente essa fala quebraria o pacto narrativo.
O mesmo ocorre em Cidade de Deus, de Paulo Lins. A oralidade crua e as gírias não são exceção gráfica, mas regra interna da narrativa — um recurso de imersão, não de descuido.
Esses exemplos mostram que a ausência de marcação gráfica pode ser uma decisão consciente. O problema não está no coloquialismo em si, mas na falta de critério quando ele surge fora de um projeto claro. Na imagem que circula pelas redes, a frase oscila entre a intenção poética e o descuido gramatical. A beleza da arte visual merecia o mesmo esmero na escrita. Uma reescrita simples — “Não adianta termos pressa; tudo acontece no tempo de Deus” — preservaria a mensagem sem comprometer sua força.
Talvez a pergunta não seja se a frase está certa ou errada, mas o que queremos comunicar quando escolhemos uma forma e não outra. Quando o “erro” é projeto, ele revela uma visão de mundo; quando é descuido, gera ruído. Em tempos de comunicação instantânea, vale perguntar: estamos ampliando a potência da linguagem ou apenas nos acostumando ao improviso? A norma deve ser sempre obedecida? A ruptura deve ser sempre celebrada? Ou o verdadeiro desafio está em saber quando — e por quê — escolher cada uma delas? Fica o convite ao leitor: onde você traça essa linha?

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






