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Holocaustos: Por que um holocausto é lembrado e o outro, apagado?

Quem vai pagar a conta, e até agora, temos sido nós, os que fomos a produção, a mercadoria, o lucro, a história que ninguém quis filmar, a ferida que ninguém quis expor, a memória que sempre coube em um parágrafo enquanto outras ganhavam museus.

A declaração das Nações Unidas, que afirma que o tráfico de africanos escravizados constitui “o crime mais grave contra a humanidade” e “a injustiça mais desumana e duradoura contra a humanidade”, convida a uma análise rigorosa. Mas essa análise só pode ser completa se confrontada com uma questão incômoda: por que a memória do Holocausto judaico foi elevada à categoria de trauma fundador da consciência ocidental, enquanto os séculos de holocausto africano, que ceifaram dezenas de milhões de vidas e estruturaram a modernidade capitalista, permanecem relegados a um lugar periférico, quando não deliberadamente apagados?

Essa pergunta não busca estabelecer uma hierarquia do sofrimento, mas sim desvelar uma hierarquia na lembrança do sofrimento. Pois o que está em jogo não é apenas o reconhecimento de uma tragédia, mas a própria política da memória: quem tem o direito de ter sua dor consagrada como universal, e cuja dor é tratada como local, datada ou, no limite, inconveniente.

Primeiramente, é preciso reconhecer a força simbólica de tal proclamação da ONU. Nomear já é julgar. Ao definir o tráfico transatlântico de escravizados e a escravidão racializada como o crime mais grave, a instituição estabelece uma escala de horror e consagra um absoluto moral. Contudo, essa absolutização, embora possa parecer um ato tardio de reparação, carrega uma ambiguidade fundamental. Pois o que significa falar de uma “injustiça desumana” dentro de uma história humana repleta de violência, massacres, genocídios e diferentes formas de dominação, e, mais ainda, dentro de um Ocidente que sempre operou com regimes de memória seletivos?

A assimetria salta aos olhos. Enquanto o Holocausto judaico tornou-se objeto de um elaborado aparato memorialístico global, museus, currículos escolares, legislação penal contra sua negação, um dia internacional dedicado, o holocausto africano, que durou mais de quatro séculos e envolveu a captura, transporte e escravização de mais de 12 milhões de seres humanos (dos quais cerca de 2 milhões morreram apenas na travessia do Atlântico), ainda luta para ser reconhecido como genocídio na acepção plena do termo. Suas marcas persistem: desigualdade racial estrutural, racismo institucional, subdesenvolvimento induzido, fratura psíquica da diáspora. E, no entanto, sua memória é sistematicamente minimizada, quando não deliberadamente apagada.

Essa disparidade não é acidental. Ela revela uma estrutura de poder: a memória que se consagra é aquela cujos perpetradores foram derrotados militarmente (a Alemanha nazista), permitindo à Europa uma narrativa de ruptura e autocrítica controlada. Já o holocausto africano foi perpetrado pelas mesmas potências que hoje se apresentam como guardiãs da ordem liberal, Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Países Baixos, Bélgica, cujas riquezas foram construídas sobre corpos escravizados. Reconhecer plenamente esse crime exigiria desmontar não apenas uma memória, mas um continuum colonial que ainda opera. O silêncio, portanto, não é descuido: é autopreservação.

É essa dimensão estrutural que torna a declaração das Nações Unidas necessária e insuficiente ao mesmo tempo. Necessária, porque finalmente reconhece a magnitude de um crime há muito minimizado ou eufemizado. Insuficiente, porque permanece confinada a uma lógica declarativa que, por falta de extensão política concreta, corre o risco de se tornar um gesto simbólico de contrição, especialmente quando comparada ao denso aparato de reparação moral e material mobilizado em torno do Holocausto judaico, que inclui indenizações, restituição de bens e um lugar central na memória ocidental.

É preciso, portanto, questionar a temporalidade e a seletividade desse reconhecimento. Por que agora? Por que tão tarde? E por que, mesmo tardiamente, a memória do holocausto africano continua sendo tratada como uma questão “identitária” ou “regional”, enquanto o Holocausto europeu foi elevado à categoria de trauma universal? A história das instituições internacionais é marcada por silêncios eloquentes. Durante séculos, as potências que construíram sua riqueza sobre a escravidão não apenas a toleraram, mas a legitimaram, codificaram e racionalizaram. O fato de as Nações Unidas, herdeiras de uma ordem internacional amplamente moldada por essas mesmas potências, proclamarem agora a desumanidade desse sistema pode ser interpretado como uma forma de catarse institucional, desde que não se cobre dela uma revisão radical das estruturas presentes.

De fato, um dos aspectos mais problemáticos da declaração reside em seu efeito de fechamento histórico. Ao designar a escravidão como uma injustiça “persistente”, ela reconhece sua persistência, mas, ao mesmo tempo, a confina a um passado que parece resolvido, como se a violência essencial pertencesse a uma era passada. É o mesmo movimento que tantas vezes se observa na memória do Holocausto judeu: a transformação de um trauma histórico em um ícone moral desengajado de suas continuidades contemporâneas, como se o antissemitismo tivesse sido superado, como se o racismo anti-negro não fosse sua estrutura paralela e frequentemente entrelaçada.

Existe, portanto, o risco de a declaração funcionar como uma cortina de fumaça moral: ao condenar uma injustiça passada, permite evitar um questionamento radical das estruturas presentes. O reconhecimento torna-se um substituto para a transformação. A memória das vítimas é honrada enquanto, sob diferentes formas, as condições de sua opressão histórica persistem. E, no caso do holocausto africano, essa tensão é ainda mais aguda porque suas vítimas, diferentemente do que ocorreu com o Holocausto judeu, não foram em sua maioria incorporadas ao contrato social ocidental como sujeitos de pleno direito; permanecem, até hoje, como os “restos” de um mundo que as construiu como mercadorias e nunca concluiu o trabalho de reconhecê-las como humanidade integral.

Essa linha de fratura exige uma demanda ainda mais radical: uma inversão do próprio olhar histórico. Pois o que as Nações Unidas acabam ratificando é menos uma ruptura do que um ajuste tardio da narrativa dominante. Reconhece o horror, certamente, mas sem desmantelar completamente as estruturas que o tornaram concebível e aceitável, inclusive a estrutura que faz com que um genocídio (o dos judeus europeus) seja considerado paradigmático e outro (o dos africanos escravizados) seja tratado como um capítulo menor, quando não silenciado.

A escravidão racializada era um regime de verdade, uma produção sistemática de conhecimento destinada a legitimar a desigualdade dos seres humanos. Esse regime não foi desmontado; foi apenas reconfigurado. Ele opera hoje quando se ensina nas escolas europeias a história do Holocausto com detalhe minucioso, mas se dedica poucas páginas ao tráfico atlântico. Opera quando se considera a negacionista do Holocausto um crime, mas se ignora ou ridiculariza quem exige reparações pela escravidão. Opera quando a memória de um sofrimento é consagrada como universal e a outra é racializada, particularizada, confinada às margens.

Este ponto é decisivo. Enquanto as estruturas intelectuais herdadas daquela época, classificações raciais, hierarquias culturais implícitas, a naturalização da desigualdade, permanecerem ativas, a condenação moral da escravidão permanecerá incompleta. Não basta dizer que a escravidão foi desumana; é preciso desmantelar os mecanismos pelos quais certos seres humanos foram e continuam sendo percebidos como menos do que plenamente humanos. E isso exige confrontar a assimetria memorial que ainda hoje decide quais mortes são lembradas como tragédia universal e quais são relegadas ao esquecimento ou ao eufemismo.

Aqui, a crítica deve se tornar mais incisiva. Pois a ordem global contemporânea, apesar de suas proclamações universalistas, continua a reproduzir assimetrias enraizadas nessa história. Fluxos de capital, relações comerciais, regimes migratórios e políticas de segurança contribuem para manter uma divisão do mundo na qual algumas vidas valem mais do que outras. A centralidade conferida ao Holocausto judaico na memória ocidental, por mais legítima que seja, não pode servir para ocultar o fato de que o Ocidente ainda não encarou com a mesma seriedade o crime fundador sobre o qual construiu sua riqueza e seu poder.

O gesto verdadeiramente subversivo seria, portanto, recusar o desfecho, manter a ferida da história aberta, não por ressentimento, mas por exigência da verdade. Uma história que se encerra muito rapidamente se neutraliza; uma memória neutralizada deixa de perturbar. A questão não é negar o valor da declaração da ONU, nem negar a importância da memória do Holocausto judeu, mas sim exigir que a mesma radicalidade memorial, com suas consequências materiais e simbólicas, seja aplicada ao holocausto africano.

No fim das contas, a questão é se a humanidade é capaz de extrair de seus próprios abismos uma exigência por justiça que vá além do lamento, e que vá além da hierarquia do sofrimento. As Nações Unidas nomearam a injustiça; resta saber se o mundo que afirmam representar está preparado para assumir todas as suas implicações, inclusive a mais incômoda: a de que não houve apenas um holocausto, e que a seletividade com que se lembra um e se apaga o outro é, ela mesma, uma ferida aberta que ainda sangra.

Sem Hollywood, sem a imprensa, sem os bancos, sem os museus, sem as editoras, sem o poder de contar nossa própria história, talvez nunca consigamos fazer a humanidade entender que o maior crime contra a humanidade durou quatro séculos, estruturou o mundo moderno e ainda sangra em cada estatística de pobreza, violência e encarceramento. Porque a consciência coletiva não se move por justiça, mas por poder narrativo. E o poder narrativo segue nas mesmas mãos que construíram sua riqueza sobre nossos corpos. O carma não é uma nuvem etérea pairando sobre o futuro: ele já está aí, tem nome, endereço e balanço patrimonial. A questão nunca foi se ele viria, mas sim quem vai pagar a conta, e até agora, temos sido nós, os que fomos a produção, a mercadoria, o lucro, a história que ninguém quis filmar, a ferida que ninguém quis expor, a memória que sempre coube em um parágrafo enquanto outras ganhavam museus. A história só vira filme quando quem a conta está do lado de quem pode pagar a produção. Nós seguimos esperando o direito de dirigir nossa própria cena.


Nilson Apollo Belmiro Santos
 é analista político, ex-suplente de deputado Federal por Minas Gerais, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas na comunicação, além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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