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Narrativas ideológicas – Por Lin Quintino

“Tentei escrever algo meu, uma opinião que nascesse sem eco, sem molde, sem pressa de existir.”

Narrativas ideológicas

Lin Quintino

Acordei com a sensação de que alguém já tinha pensado por mim.

Não era cansaço, nem sonho mal resolvido. Era outra coisa, uma espécie de eco. Como se minhas ideias tivessem sido ensaiadas antes, repetidas em algum lugar invisível, até que chegassem a mim prontas, vestidas, convincentes.

Abri o celular, e lá estavam elas: opiniões alinhadas, certezas compartilháveis, indignações embaladas em poucas linhas. Bastava escolher uma, como quem escolhe roupa para sair. Vesti uma revolta leve, dessas que cabem num story, e segui o dia.

No café, ouvi duas pessoas discutindo política com a firmeza de quem não duvida. Não duvidavam de nada, nem do que sabiam, nem do que sentiam, nem do que odiavam. Era bonito, de certo modo. A convicção dá uma aparência de solidez ao mundo, como se tudo estivesse no lugar. Mesmo quando não está.

Mas me incomodava o tom. Não o conteúdo, que, aliás, poderia ser trocado por qualquer outro, mas a forma como falavam: não para entender, mas para vencer. Como se cada frase fosse um tijolo erguido contra o outro, e não uma ponte possível.

Fiquei pensando quando foi que começamos a confundir pensamento com pertencimento.

Porque, no fundo, é disso que se trata. Não é sobre ideias, é sobre abrigo. As narrativas ideológicas nos acolhem, nos dizem quem somos, onde estamos, quem são os nossos e, principalmente, quem são os outros. E há um conforto imenso em saber quem culpar.

Voltei para casa com essa inquietação grudada na pele.

Tentei escrever algo meu, uma opinião que nascesse sem eco, sem molde, sem pressa de existir. Mas era difícil. As palavras vinham contaminadas, como se já tivessem dono. Cada frase parecia repetir um discurso antigo, ainda que eu tentasse reinventá-la.

Percebi então que pensar exige um tipo raro de coragem: a de ficar sozinho por um instante. Sem aplauso, sem concordância, sem a proteção de um grupo que nos diga “você está certo”.

E talvez seja por isso que as narrativas ideológicas sejam tão sedutoras. Elas nos poupam do vazio. Preenchem o silêncio com respostas rápidas, ainda que rasas. E, no meio do barulho, a gente desaprende a escutar, inclusive a si mesmo. Fechei o celular.

Por alguns minutos, só existi.

Sem opinião formada, sem frase pronta, sem lado definido. Apenas a dúvida — essa velha desconhecida, tão evitada, tão necessária.

E, pela primeira vez naquele dia, senti que talvez ali, naquele espaço incômodo, começasse algo que ainda fosse verdadeiramente meu.

Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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