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O Alto Preço que o Golfo Pérsico paga pela Parceria com Trump, pode se transformar em oportunidade para o Mercado Imobiliário no Brasil – Por Nilson Apollo Belmiro Santos

A intemperança do presidente norte-americano e a falta de estratégia no Oriente Médio afugentam investidores do Golfo. Para Nilson Apollo, especialista em geopolítica e mercado imobiliário, o Brasil tem a chance de se consolidar como o porto seguro fora do circuito das grandes potências beligerantes.

Enquanto os holofotes do mundo se voltam para as areias escaldantes do Oriente Médio, uma nova onda de tensão, impulsionada por decisões unilaterais e uma política externa volátil, reacende os alertas dos mercados globais. A chamada “má decisão de guerra” atribuída ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante sua gestão, e cujos efeitos colaterais ainda reverberam, serve como um estudo de caso sobre como a geopolítica mal interpretada pode destruir economias regionais em questão de horas.

Embora o conflito envolva diretamente nações como Irã e Israel, o epicentro econômico do golfo, Dubai, emerge como a maior vítima colateral dessa instabilidade. Especialistas apontam que a falta de uma estratégia clara, somada ao desconhecimento geográfico das complexidades tribais e sectárias da região, resultou em um erro de cálculo brutal que agora força um êxodo de capitais e questiona a própria noção de segurança no “porto seguro” dos Emirados.

Paradoxalmente, enquanto Dubai enfrenta a fuga de capitais impulsionada pela instabilidade, o mercado brasileiro de construção civil e imobiliário vive um momento de expansão silenciosa, porém consistente. A comparação entre os dois cenários revela oportunidades claras para investidores que buscam segurança patrimonial em meio ao caos geopolítico.

Curto Prazo: O Choque Imediato e a Fuga de Capitais

Nos primeiros momentos após o agravamento das hostilidades, Dubai sente o impacto na veia aberta de sua economia: o setor imobiliário e financeiro. A cidade, que construiu sua reputação como um oásis de estabilidade em meio ao caos regional, vê a confiança do investidor estrangeiro evaporar.

O prejuízo imediato se traduz em liquidez. Transações de alto padrão, especialmente em empreendimentos de luxo na Palm Jumeirah e no Dubai Marina, são congeladas. A volatilidade cambial e o medo de uma escalada militar fazem com que os escritórios de family offices europeus e asiáticos emitam ordens de “stop-loss” imediato. O erro de cálculo político transformou a “cidade do futuro” em um ponto de interrogação geopolítico.

Médio Prazo: A Má Parceria, a Intemperança de Trump e a Falta de Estratégia

O que agrava a situação é a sensação de que Dubai pagou caro por uma má parceria, e aqui o erro se personifica na figura de Donald Trump. Ao longo de seu mandato, a imprevisibilidade e a intemperança do então presidente americano transformaram os tradicionais aliados do Golfo em reféns de uma política externa errática. O erro de ter Trump como parceiro estratégico não foi apenas tático, mas estrutural: decisões tomadas em tweets, rompimento unilateral de acordos e demonstrações de força sem um plano de saída minaram a previsibilidade que sustenta qualquer economia baseada em capital estrangeiro.

A falta de estratégia por parte dos formuladores de política externa ocidentais criou um vácuo de poder. Para Nilson Apollo, corretor de imóveis de alto padrão, mas também entusiasta e articulador de geopolítica e relações de negócios internacionais, o cenário é didático.

“O que vemos é o resultado do desconhecimento geográfico e da escolha errada de parceiros. Tomaram decisões de gabinete sem entender que no Oriente Médio, as alianças são líquidas e as retaliações são sólidas. Ter Donald Trump como parceiro, com sua intemperança, foi um erro de cálculo que custou caro à região. Dubai está pagando o preço por ser o shopping center da vizinhança em chamas. O investidor não quer saber de quem é a culpa; ele quer saber onde o míssil vai cair amanhã. E, no momento, ninguém consegue dar essa garantia em Dubai.”

Após décadas de investimentos objetivando ganhar a atenção da elite mundial, bastaram dias para que a desconfiança dos investidores se pulverizasse – Imagem: Reprodução

A médio prazo, o prejuízo se materializa na suspensão de projetos de infraestrutura bilionários e na desaceleração do turismo de luxo, setor que vinha batendo recordes consecutivos.

Longo Prazo: A Síndrome da Insegurança e o Tempo de Cura

Talvez o dano mais profundo, e o mais difícil de reparar, seja o psicológico. Especialistas estimam que o tempo necessário para que um investidor ou residente estrangeiro se sinta novamente seguro para adquirir imóveis ou fixar residência na região será de, no mínimo, uma década.

O longo prazo reserva um prejuízo chamado “perda de relevância”. Para que Dubai recupere o status de “refúgio confiável”, será necessário um investimento massivo em seguros de risco geopolítico, reestruturação de contratos de locação e, paradoxalmente, um distanciamento estratégico das potências beligerantes. O custo para reverter a percepção de risco será superior ao custo de construção de suas maiores obras.

Quadro Comparativo de Desempenho do Setor Imobiliário e da Construção Civil

IndicadorBrasil (2026)Dubai (2026)
Crescimento do SetorPIB da construção: +2,7% projetado para 2026Transações imobiliárias: +43,9% em valor (jan/2026)
Volume de TransaçõesMercado em expansão estável15.756 transações só em janeiro (AED 55,18 bi)
Demanda por Cimento+1,1% em janeiro de 2026Mercado aquecido por megaprojetos
FinanciamentoSelic a 15% (desafio) / Crédito habitacional com juros abaixo da SelicTaxas de hipoteca: ~4,57%
Custo de Construção (m²)R$ 1.925,08 (média nacional)AED 14.809–26.588 por m² (R$ 21.087–37.858)
Custo de Vida (Aluguel 1 qt)R$ 2.464 (centro) a R$ 1.501 (fora)R$ 11.911 (centro) a R$ 7.591 (fora)

Painel de Vantagens e Desvantagens: Brasil x Dubai

CritérioBrasilDubai
Segurança Geopolítica✅ Isolado de conflitos globais; sem vizinhos beligerantes❌ Inserido em região de conflito ativo (Irã, Israel, EUA)
Custo de Entrada (Imóveis)✅ Baixo: a partir de R$ 700 mil (~US$ 140 mil) para Golden Visa❌ Alto: R$ 21.000–37.000/m² em áreas centrais
Golden Visa / Residência✅ US$ 140.000–200.000; residência permanente desde o dia 1; cidadania em 4 anos✅ Golden Visa com investimento imobiliário (AED 2 mi ~ US$ 545 mil)
Carga Tributária❌ Complexidade alta; reforma tributária em curso; INE tributado a 20%✅ Zero imposto de renda pessoa física; sem property tax anual
Financiamento❌ Selic alta (15%); juros de hipoteca ~11,64%✅ Taxas de hipoteca ~4,57%
Retorno sobre Investimento✅ Valorização consistente; demanda por moradia crescente✅ Altos yields de aluguel (6–8% ao ano)
Mão de Obra❌ Escassez estrutural de mão de obra qualificada✅ Mão de obra internacional disponível
Estabilidade Regulatória⚠️ Melhorando com Janela Única para investidores✅ Ambiente pró-investidor consolidado
Mobilidade Global (Passaporte)✅ Acesso a 169–171 destinos sem visto (Schengen, Reino Unido, Japão)✅ Passaporte com excelente mobilidade global
O futuro na Meca imobiliária é incerto – Imagem: Divulgação

Onde Está Ocorrendo o “Boom” Imobiliário no Brasil

O crescimento do setor no Brasil não é homogêneo — e é justamente nessa diversidade regional que residem as oportunidades para investidores estrangeiros que fogem do Oriente Médio.

Regiões em Expansão Acelerada

1. Nordeste — O Destaque Nacional

  • Crescimento no consumo de cimento: +13,6% em janeiro de 2026, a maior alta entre todas as regiões
  • Estados como Maranhão (+7,30% em 12 meses), Alagoas (+8,27%) e Ceará (+7,61%) lideram a valorização
  • Atração de investimentos em turismo e infraestrutura portuária

2. Norte — Expansão com Incentivos Fiscais

  • Alta de 6,9% no consumo de cimento
  • Amapá registrou o maior aumento mensal do país: +1,54% no custo da construção, refletindo forte demanda
  • Golden Visa com redução de 30% no investimento mínimo para a região (aproximadamente US$ 140.000)

3. Centro-Oeste — Agronegócio e Urbanização

  • Crescimento de 3,1% no consumo de cimento
  • Mato Grosso lidera valorização em 12 meses: +10,21% no custo da construção
  • Expansão impulsionada pelo agronegócio e migração interna

4. Sudeste — O Mercado Consolidado

  • Maior mercado do país, mas com retração de 4,8% no cimento
  • São Paulo e Rio de Janeiro seguem como polos de alto padrão
  • Baixada Santista (SP) apontada como região com alto potencial de aproveitamento do ciclo positivo

5. Sul — Crescimento Estável

  • Paraná (+6,74% em 12 meses), Santa Catarina (+6,61%) e Rio Grande do Sul (+6,46%)
  • Infraestrutura consolidada e qualidade de vida

Medidas para Atrair Investimentos: Oportunidades de Política Pública

Nilson Apollo destaca que o Brasil já deu passos importantes, mas precisa avançar para capturar o capital que foge da região do conflito.

Medidas Já Implementadas (Acertos)

MedidaImpacto
IOF-FX zerado para retorno de investimento estrangeiro (Decreto 12.499/2025)Investidores estrangeiros podem repatriar capital com alíquota 0%, reduzindo significativamente o custo de saída
Golden Visa com residência desde o dia 1Mínimo de 14 dias de permanência a cada 2 anos para manutenção do status; cidadania em 4 anos
Janela Única para Investidores Estrangeiros (Decreto 12.615/2025)Plataforma digital centralizada para registro de empresas, vistos e licenças; implementação iniciada em 2026
Minha Casa, Minha VidaPrograma habitacional com subsídios e financiamento acessível; principal motor de demanda no país

Medidas Recomendadas para Sanar Desvantagens e Atrair Investimentos

MedidaProblema que EndereçaRecomendação Específica
Redução do Custo de FinanciamentoSelic a 15% penaliza financiamentosAcelerar o ciclo de queda da Selic (previsto para iniciar em março de 2026); criar linhas de crédito específicas para investidores estrangeiros
Expansão e Divulgação do Golden VisaPrograma pouco conhecido internacionalmenteCampanha internacional pela ApexBrasil; criar canal de atendimento exclusivo em inglês, árabe e mandarim
Capacitação de Mão de ObraEscassez estrutural de trabalhadores qualificadosProgramas federais de capacitação profissional; facilitação de vistos de trabalho para profissionais estrangeiros
Simplificação TributáriaComplexidade do sistema tributárioCriar regime especial para investimentos imobiliários estrangeiros (REIT brasileiro)
Zonas de Desenvolvimento Imobiliário PrioritárioDistribuição desigual dos incentivosExpandir modelo de redução do Golden Visa para outras regiões estratégicas; oferecer incentivos fiscais para megaprojetos
Seguro de Risco GeopolíticoAmérica Latina associada a risco políticoCriar mecanismo de garantia federal para investimentos estrangeiros; firmar acordos bilaterais com países do Golfo
Marketing de Posicionamento GlobalBrasil não é percebido como “porto seguro”Campanha “Brazil Safe Haven”; participação em feiras imobiliárias internacionais; roadshows para family offices

A Visão do autor

Nilson Apollo, entusiasta e articulador de geopolítica e relações de negócios internacionais, vê na situação uma oportunidade histórica para o Brasil.

“O que vemos é o resultado do desconhecimento geográfico e da escolha errada de parceiros. Tomaram decisões de gabinete sem entender que no Oriente Médio, as alianças são líquidas e as retaliações são sólidas. Ter Donald Trump como parceiro, com sua intemperança, foi um erro de cálculo que custou caro à região. Dubai está pagando o preço por ser o shopping center da vizinhança em chamas. O investidor não quer saber de quem é a culpa; ele quer saber onde o míssil vai cair amanhã. E, no momento, ninguém consegue dar essa garantia em Dubai.”

Apollo argumenta que o momento é de articulação nacional. “Precisamos transformar essa fuga de capitais em uma política de estado. Enquanto o mundo se prepara para décadas de tensão no hemisfério norte e no oriente, o Brasil pode se apresentar como o grande porto seguro do sul global. Para o setor imobiliário de luxo e para os fundos de investimento, a questão não é mais apenas rentabilidade, mas sobrevivência patrimonial. E nesse quesito, o Brasil sai na frente.”

“O Brasil tem a oportunidade única de se consolidar como o grande ‘circuito fora da guerra’. Vemos investidores saindo de Dubai, de Londres e de Nova York. Eles buscam três coisas: segurança jurídica, estabilidade institucional e isolamento geográfico de conflitos. O Brasil oferece isso. Não temos vizinhos beligerantes, temos uma vasta extensão territorial e, em muitos setores, uma democracia sólida.”

Conclusão

A má decisão de guerra no Oriente Médio, agravada pelo erro de contar com a intemperança de Donald Trump como parceiro, expôs a fragilidade dos paraísos financeiros construídos à sombra de conflitos geopolíticos. Enquanto Dubai enfrentará anos de desaceleração e desconfiança para reconstruir sua imagem de segurança, o alerta soa para investidores do mundo todo.

Os números mostram um paradoxo: Dubai continua batendo recordes de transações mesmo em meio à guerra. A resiliência do mercado emiratense é inegável, mas ela carrega um prêmio de risco crescente. O capital mais sofisticado, aquele que busca segurança patrimonial acima de tudo, já começa a olhar para alternativas.

O Brasil, com seu Golden Visa acessível, sua posição geográfica privilegiada e seus avanços regulatórios recentes, surge como o principal candidato a receber esse fluxo. A visão de Nilson Apollo ressoa como um chamado estratégico: o erro de cálculo alheio pode ser o acerto de contas do Brasil com seu próprio potencial. Resta saber se o país está preparado para receber o capital que foge do fogo cruzado, oferecendo não apenas imóveis, mas a estabilidade que o mundo desenvolvido parece ter perdido


Nilson Apollo Belmiro Santos
  Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde reside e desempenha atividades laborativas na comunicação e comerciais, atuando como Períto Judicial e Corretor de Imóveis sob o registro no CRECI – ES 15 673F. Sua trajetória profissional engloba, além de imóveis, a prestão de serviços e consultorias em área de segurança corporativa (sendo ele formado na área pela UNI-BH), e também escreve semanalmente no Jornal Clarín Brasil, onde seus textos exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores

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