Todo mundo tem uma lona invisível cobrindo o fôlego.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 02/02/2026
O sapo e a piscina
Paulo Siuves
Fomos passar o final de semana no sítio do meu cunhado, pouco mais de uma hora de Belo Horizonte. Nada de extraordinário. Sol com chuva de janeiro, conversa solta, aquela lentidão boa que só o interior ainda permite.
Na hora de destampar a piscina e puxar a lona que estava em hibernação, veio a surpresa. Ali, imóvel, havia um sapo grande. Por um instante, minha esposa, meu filho e a esposa do meu cunhado se encantaram com ele, aquele verde bruto, o corpo largo, quase imponente.
Houve até correria para fotografar, registrar o momento inusitado. Só depois percebemos: o sapo estava morto. Gordo que nem senador nos pampas de Brasília, língua pendurada para fora, olhos esbugalhados para o além.
Ninguém soube dizer exatamente o que o matou. Talvez tenha entrado quando a piscina já estava coberta. Talvez tenha faltado oxigênio ali embaixo. Talvez o cloro estivesse forte demais. Talvez tudo isso junto. Talvez nenhuma dessas coisas isoladamente.
O fato é simples: o sapo não se adaptou.
Vivemos num tempo em que a resiliência virou virtude universal, quase uma obrigação moral. Se algo dá errado, a culpa recai sempre sobre quem não “soube lidar”, não “soube se reinventar”, não “soube aprender com a dor”.
Mas o sapo não aprendeu nada.
Não houve lição.
Não houve superação.
Houve apenas um limite.
A resiliência, esse discurso que enche rede social, ali não funcionou. O bicho não se adaptou, ué. A lona tampou o ar, o cloro virou veneno, o ambiente ficou impossível. Na natureza é assim: tem limite que nem reza resolve.
Mas a sociedade insiste em nos querer super-homens. Aguenta a crise, o trabalho que suga a alma, o preço do gás nas alturas. Como se fraqueza fosse pecado mortal, e não condição humana.
Outro fato simples e inexorável: a morte entra de gaiato no banal. A gente rindo, pensando em mergulho e petisco, e ela ali, boiando no meio da piscina. Destampar a lona foi como abrir uma latinha de cerveja, e pronto: uma vida interrompida.
Não é novela das nove. É o cotidiano. O cheiro ruim, o som da natureza ao fundo, o sapo boiando feito piada sem graça. Pode soar como filosofia de boteco, mas é só a verdade nua: o controle é uma ilusão confortável.
Ele parecia resistente — gordo, verde desbotado, das Gerais, bicho que aguenta seca e chuva. Mas morreu. Espelho de muito marmanjo por aí: o fortão que chora no travesseiro, o empresário “rei do pedaço” engasgado em dívida, a gente que posa de resiliente enquanto range os dentes.
As aparências enganam. Todo mundo tem uma lona invisível cobrindo o fôlego.
Meu cunhado jogou o bicho no mato, virou adubo para o ciclo continuar. A piscina brilhou de novo, mas o sapo virou crônica.
Ele não morreu por ser fraco. Morreu porque aquele não era um lugar possível para ele.
E talvez isso diga mais sobre o mundo que estamos construindo do que sobre a suposta incapacidade de adaptação de quem não resiste.

Paulo Siuves é um dedicado defensor dos Direitos das Mulheres, reconhecido internacionalmente como “Embaixador da Paz” por seus esforços. Com um sólido histórico acadêmico e honrarias em Filosofia e Literatura, incluindo os títulos de Doutor Honoris Causa, Paulo apoia e promove talentosas escritoras, contribuindo para umcenário literário mais inclusivo e igualitário. Seu compromisso com a justiça social e aigualdade de gênero é evidenciado por suas inúmeras qualificações, incluindo cursos deformação em Direitos Humanos, e pelo reconhecimento com o Troféu Evita Perón, concedido pelo Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores”






