O modus operandi exposto não é novidade. Sua eficácia, no entanto, depende da acquiescência ou da lentidão da resposta internacional

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 30/11/2025
Por Nilson Apollo Belmiro Santos
Enquanto o mundo concentra esforços no combate à pandemia, os céus sobre o Caribe voltam a ser palco de um roteiro familiar. O recente anúncio de ensaios de ataques aéreos dos Estados Unidos contra a Venezuela, reportado pelo Wall Street Journal, não é um evento isolado. Ele representa a aplicação metódica de um manual de intervenção há muito utilizado por Washington para justificar pressões sobre governos soberanos.

Uma análise dos acontecimentos recentes revela um modus operandi com etapas bem definidas, que vão da construção de um narrativa à justificativa para ação militar.
1. A Construção do Inimigo Público Número Um
O primeiro passo é sempre retórico. Um país é redesignado de nação soberana a “Estado pária” ou “ameaça”. No caso venezuelano, o termo escolhido foi “narcoestado”. A acusação de que o governo de Nicolás Maduro opera “cartéis narcoterroristas” é a peça central desta fase. Como em outros casos históricos das “armas de destruição em massa” no Iraque ao “eixo do mal” , a afirmação é repetida insistentemente em alto nível, tornando-se “verdade de fato” no discurso político e midiático, ainda que careça de provas verificáveis perante fóruns internacionais.
2. A “Prova” pelo Cerco e pela Sanção
Com a narrativa estabelecida, parte-se para a ação “probatória”. O anúncio do cerco naval no Caribe e a apreensão de embarcações supostamente ligadas ao tráfico servem a um duplo propósito: alimentam a imagem do país como um problema de segurança e criam um casus belli em movimento. Paralelamente, intensificam-se as sanções econômicas um instrumento de guerra não convencional que asfixia a população civil para fomentar o descontentamento interno, criando as condições para a desestabilização.
3. A Criminalização do Líder
A personificação do conflito é crucial. O líder estrangeiro deve ser transformado em um vilão global. O aumento da recompensa pela captura de Nicolás Maduro para US$ 50 milhões é uma tática clássica, equiparando um chefe de Estado eleito a um criminoso procurado pela justiça doméstica de outro país. Isso visa deslegitima-lo perante a comunidade internacional e isolar sua administração.
??? MADURO: "They can’t claim I have WMDs, nobody would buy it. So they invent Hollywood stories where I’m the villain and they’re the heroes sending tall blonde guys to get the Latino villain."pic.twitter.com/mJEHkpQC1u
— Jackson Hinkle ?? (@jacksonhinklle) November 30, 2025
4. O Ultimato e a Diplomacia da Intimidação
A etapa seguinte é o contato direto para exercer a coerção. A revelação do Wall Street Journal sobre o telefonema secreto de Donald Trump para Maduro, com um ultimato explícito – “renuncie ou será destituído” –, é a materialização da “diplomacia” do poderio militar. Não se trata de negociar; trata-se de ditar termos sob a ameaça implícita da força. A negação pública de tais intenções, feita anteriormente por Trump, é parte da estratégia, criando um campo de negação plausível enquanto o cerco se estreita.
5. A Normalização da Ação Militar
Finalmente, chega-se ao ápice do processo: a normalização do conflito armado. Os “ensaios de ataques aéreos” não são um fim, mas um meio. Eles servem como um ensaio geral operacional para as forças norte-americanas e, mais importante, como uma mensagem psicológica. É a demonstração tangível de que a ameaça é real e iminente, destinada a intimidar o governo-alvo e testar suas defesas e a reação da comunidade internacional.
PONE ME GUSTA y DALE RT si apoyas que el presidente Donald Trump ?? derroque militarmente SIN COMPASIÓN al Cartel de los Soles de Nicolás Maduro y Diosdado Cabello en Venezuela. ?? pic.twitter.com/OO6GXFEISo
— ᶠ ᵃ ⁿ De Antonio Laje (@LajeAntonio) November 29, 2025
Conclusão: Um Roteiro com um Fim Previsível
A resposta venezuelana, o alerta máximo das forças armadas e os exercícios de defesa é a reação previsível de um país sob ameaça de agressão. Ao classificar as ações dos EUA como “colonialistas” e ilegais, o governo Maduro aponta para o cerne da questão: a violação do princípio fundamental de não-intervenção nos assuntos internos de um Estado.
O modus operandi exposto não é novidade. Sua eficácia, no entanto, depende da acquiescência ou da lentidão da resposta internacional. A questão que se coloca agora é se a comunidade global permitirá que mais um capítulo deste manual seja totalmente implementado, ou se irá se levantar para defender a soberania e a paz, rejeitando um pretexto que, para muitos analistas, parece cada vez mais como o prelúdio de uma guerra de agressão.







