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A cidade à mercê da impunidade

O silêncio dos que veem e não falam, dos que sabem e não se importam.

A cidade à mercê da impunidade

Lin Quintino

A cidade acorda antes do Sol.

Um murmúrio de motores, passos apressados e buzinas contidas.

Parece viva, mas é uma vida cansada, respirando com esforço entre prédios e promessas.

Há algo de imoral no ar, um tipo de desalento que não se anuncia, apenas se sente.

É o peso do que não se cumpre, do que não se paga, do que se esquece de propósito.

A impunidade anda de mãos dadas com a pressa e ambas atravessam as ruas com o sinal fechado.

Nas esquinas, o tempo parece hesitar.

O homem do jornal vende notícias como quem vende esperança velha.

A mulher do pão sorri sem acreditar.

O menino que pede no farol já não pede nada, estende a mão por costume.

A cidade é um corpo cansado de si mesma.

Têm  feridas abertas cobertas de publicidade colorida.

Têm becos que guardam segredos que ninguém mais quer desvendar.

E tem uma memória curta, tão curta quanto o intervalo entre uma indignação e outra.

Mas o que dói, de verdade, é o silêncio.

O silêncio dos que veem e não falam, dos que sabem e não se importam.

A impunidade não é um fato apenas político, é também uma escolha íntima.

É o momento em que o coração decide não se comover mais.

E, então, a cidade se torna reflexo desse endurecimento.

Os muros crescem. As janelas se fecham.

E o medo se torna rotina, como o café da manhã.

Mesmo assim, há quem ainda olhe o céu.

Quem espere, entre um semáforo e outro, que um raio de luz desça e limpe tudo.

Quem ainda creia que a justiça pode ter o cheiro da manhã depois da chuva.

Mas a chuva, quando vem, não lava a culpa, apenas espalha a lama.

E a cidade, silenciosa e molhada, continua a fingir que vive.

Porque o mais triste não é estar à mercê da impunidade.

É começar a achar que ela é natural.

E sorrir, como quem já se acostumou com o inevitável.

Lin Quintino

Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.

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