Cultura/Lazer Mercados/Negócios Política Nacional

De Cabresto A Wi-Fi: O Curral Eleitoral Agora É Digital – Por Paulo Siuves

De Cabresto A Wi-Fi: O Curral Eleitoral Agora É Digital


Paulo Siuves

Você já viu aquele amigo que tenta ser a voz da razão num grupo de
WhatsApp? Não o que manda áudios de 20 minutos sobre política, mas aquele que, ao
menor sinal de tempestade ideológica, começa a se afastar como uma barata quando a
luz acende. Pois bem, dias atrás, fui esse amigo, ou pelo menos tentei.
Tudo começou com uma figurinha. Não era sobre novela, nem o cachorro
fofinho do vizinho. Era um daqueles GIFs “politicamente carregados”, com frames
capazes de provocar um impeachment por segundo.

Eu, que sou um ser de paz e não me envolvo em engajamento fervoroso, fui lá
e postei a dita figurinha, achando que todos fariam o mesmo: dar risada e seguir em
frente. Ingenuidade minha. Em minutos, o que se seguiu foi um pequeno apocalipse
digital. (E nem era sobre o incêndio na Amazônia, imagine a revolução ideológica que
veio depois!)

Churrasco Político e Reputações Assadas

O que se seguiu foi um apocalipse digital. Emojis viraram granadas ideológicas.
Cada figurinha, uma tentativa de golpe retórico. E eu, que só queria um café em paz,
me vi no meio de um churrasco político onde, em vez de carne, estava prestes a ter
minha reputação virtualmente assada.

No fundo, o que percebi, ou melhor, o que se tornou claro, é que, com tantas
opções políticas, não importa se o Brasil tem trinta ou trinta mil partidos. O curral
eleitoral segue firme, só que agora com Wi-Fi.

Sai o cercado físico, entram os chats, os memes e emojis para fazer a captação
de votos. E, entre um gif e outro, eu só pensava: “Quem diria que, em pleno século 21,
o verdadeiro rebanho seria guiado por uma figurinha no WhatsApp?”.


À medida que os minutos passavam, a batalha começou a tomar proporções
épicas, dignas de uma guerra que não envolvia tanques nem soldados, mas gifs e
figurinhas que competiam pelo posto de “comentário mais incendiário”.

A troca de farpas foi imediata, o que acontecia ali era um festival de rótulos e
acusações. Lulista, bolsonarista, esquerdista, direitista… um verdadeiro desfile de “-
ista” que não leva ninguém a lugar algum, a não ser ao fundo do poço da chatice.

Polarização 2.0: Coronéis Digitais e o Rebanho De Dedos

O curioso é que, com tantas opções de partidos, ideologias e posições, parecia
que, no fundo, todos ali estavam seguindo o mesmo script. Eu comecei a imaginar que
o verdadeiro papel da tecnologia, ao invés de facilitar o debate e a troca de ideias, estava se tornando o grande culpado pela polarização 2.0.

Como se cada notificação fosse uma nova dose de adrenalina para o cérebro politicamente excitado.
E o pior: ninguém se atrevia a dar o primeiro passo para a desescalada. Não,
porque o “primeiro a ceder” numa discussão de WhatsApp seria lembrado, mais tarde,
com uma referência maldosa como: “Aquele que se deixou corromper pela agenda do
inimigo.” E eu, no meu papel de observador atônito, pensava: “Uau, como a política
evoluiu…”

Mas evoluiu mesmo? O velho curral eleitoral, com seus favores e cabrestos,
agora veste terno digital. Os coronéis de outrora foram substituídos por estrategistas
de meme. E o rebanho? Bem, esse desliza o dedo na tela, buscando figurinhas e se
guiando por indignações superficiais.

O Novo Curral: Bites, Dedos e Rancor

E lá estava ele, o extremismo surdo pronto para defender sua bandeira — uma
pedra virtual em cada mão, como se fosse possível convencer alguém a mudar de
opinião via emoji de desprezo.

A virtualização das opiniões, em vez de aumentar a troca de ideias, só servia
para aumentar o volume da aversão e do preconceito ideológico. E eu, rindo de
nervoso, só podia pensar: “Meu Deus, em que momento as discussões sobre política
se transformaram em um reality show de emojis e textos corrigidos
automaticamente?”

Foi então que, após algumas ameaças, um ou outro comentário sobre os
“inimigos da pátria” e uma avalanche de “apoios velados”, chegou a parte final da
minha reflexão: o grande “curral eleitoral” não estava mais nos grotões do Brasil, com
a velha prática de favores em troca de votos, mas se encontrava ali, em alguns bites de
tela, no deslizar frenético de dedos, nas trocas de figurinhas e nos memes que
disfarçam discursos rancorosos.

Essa polarização, que parecia um monstro em pleno crescimento, só poderia
ter uma explicação. O “curral eleitoral 2.0” é dominado pela tecnologia, onde o voto,
antes reservado às urnas, agora se revela em “likes” e “shares”.

E a indignação, que antes era algo mais profundo, passava a ser apenas mais
um item para ser consumido e descartado, como uma propaganda de margarina na TV.

A Morte do Debate Inteligente

Afinal, a questão nunca foi o número de partidos. Não. O problema era a
mentalidade do eleitorado, que se deixava seduzir não pela ideia, mas pela paixão cega
de uma narrativa vendida a preço de ouro.

E o pior? Todo mundo ali, em algum momento, foi culpado disso. Eu, incluindo.
Quem nunca se deixou levar por uma indignação superficial? Quem nunca se absteve de ir um pouco mais fundo na reflexão só porque o “inimigo” estava ali, com a sua
mensagem em maiúsculas, pronto para te atacar?

A ironia, claro, estava em que o tal “curral eleitoral” de outrora, tão criticado
pelos mais Cínicos, hoje se via tão moderno, tão refinado. Que maravilha a evolução da
política, não? Agora, o rebanho é digital, e seus pastores, bem, esses só precisam de
uma boa estratégia de meme para garantir o controle dos extremos, cada gado no seu
canto.

E assim, entre uma figurinha e outra, percebi o seguinte: se o futuro da
democracia está sendo guiado por emojis e discussões superficiais, temo que o maior
risco não seja o desaparecimento das urnas, mas a morte do debate inteligente,
aquele que nos faz pensar e não apenas reagir como robôs programados.
O verdadeiro problema, meus amigos, é que até o humor ácido está ficando
obsoleto — agora, ele é apenas uma piada de WhatsApp, reprimida sem a menor
reflexão.

Eu, claro, segui o caminho que pensei ser o mais sábio; chamei a pessoa no
particular e encerrei a discussão longe dos holofotes digitais, fui tomado por uma
sensação de vitória, não sobre os outros, mas sobre minha sanidade. No fim, isso é o
que importa. Pelo menos até o próximo GIF.

Curta,compartilhe e siga-nos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *