“O cheiro de mar misturava-se ao peixe fresco vindo de algum canto improvisado. E, por um instante, tudo parecia caber naquele aroma: o cansaço, a esperança, a rotina repetida que, ainda assim, nunca é igual.”

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 17/04/2026
O Sol ainda ensaiava sua subida quando a praia dos pescadores começava a despertar. Não era um despertar apressado, desses que o mundo moderno exige, era lento, quase preguiçoso, como quem sabe que o tempo ali corre diferente.
Os barcos, alinhados na areia como velhos companheiros de histórias, carregavam marcas de mar e de vida. Havia tinta descascada, nomes desbotados, promessas silenciosas. Um homem, de pele curtida pelo sal e pelo vento, puxava o barco com mãos firmes, como se puxasse também memórias, algumas boas, outras nem tanto.
Caminhar por ali era como atravessar um livro aberto. Cada passo revelava uma cena: o menino trazendo na sacola um peixe, a mulher ajeitando o chapéu enquanto observava o horizonte, o riso solto de quem aprendeu a viver com pouco, mas com verdade.
O cheiro de mar misturava-se ao peixe fresco vindo de algum canto improvisado. E, por um instante, tudo parecia caber naquele aroma: o cansaço, a esperança, a rotina repetida que, ainda assim, nunca é igual.
Sentei-me na areia, deixando que o vento bagunçasse meus pensamentos. Observei o vai e vem das ondas, sempre as mesmas, sempre outras. Pensei em como a vida se parece com aquilo: insistente, cíclica, mas cheia de pequenas diferenças que fazem tudo valer.
Um pescador passou por mim, carregando seu balde. Olhou, sorriu sem pressa, como quem reconhece em outro alguém que também busca algo, mesmo que não saiba exatamente o quê.
E ali, entre redes, barcos e marés, entendi: há lugares que não são apenas paisagens. São encontros. Com o mundo, com o outro… e, principalmente, com aquilo que a gente esquece de ouvir dentro de si. A praia dos pescadores não é só um destino. É uma pausa que a vida oferece, para lembrar que existir também pode ser simples.
Lin Quintino
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Lin Quintino – Mineira de Bom Despacho, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: Academia Mineira de Belas Artes – AMBA / ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis – Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais.
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