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A vida é, simplesmente – por Paulo Siuves

O passado funciona como retrovisor: olhamos rápido, aprendemos, seguimos

A vida é, simplesmente

Paulo Siuves

Os pais nunca têm o mesmo bebê por muito tempo. Mal se acostumam às madrugadas de cólica, e já chega a fase das papinhas. Quando se encantam com os primeiros sons, nascem os dentinhos. Quando se orgulham do engatinhar, o pequeno já se aventura, trôpego, a ficar de pé. Cada semana traz um bebê novo, maior, diferente, irrepetível. O tempo não espera: passa, leva, transforma.

E é nesse movimento que a pergunta mais antiga do mundo volta a nos cutucar: o que é, afinal, a vida?

Alguns dirão que é gente: o cônjuge, os filhos, os amigos. A vida pode estar num abraço depois de um dia difícil ou no telefonema inesperado que clareia a tarde. Para outros, a vida toma forma em coisas: a casa erguida com sacrifício, o carro comprado com esforço, a joia herdada, a coleção de discos guardada com carinho. Há quem a encontre em detalhes mínimos: o café partilhado, o vestido esquecido no armário, o prato que cheira à infância.

Outros não a prendem a objetos. Preferem vê-la em ideias: a liberdade de ir e vir, a saúde que sustenta o corpo, a paz silenciosa de um domingo, o amor que costura os dias. Todas essas respostas são verdadeiras. A vida é múltipla, e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal.

Para mim, ela se parece com um trilho de trem. Atrás, o pé que vai deixar o chão guarda o que já vivemos: o espaço da experiência. À frente, o pé prestes a tocar o solo aponta para o horizonte de expectativa: o futuro que se aproxima. E, no instante delicado em que o corpo se equilibra sobre a linha estreita, está o presente — o único lugar onde a vida realmente acontece.

O passado funciona como retrovisor: olhamos rápido, aprendemos, seguimos. Ninguém dirige com a cabeça virada para trás. O futuro é um campo de ensaio: planejamos, sonhamos, fazemos listas. Mas tudo isso só existe agora — neste momento em que escrevo, neste instante em que você lê.

Enquanto pensamos no amanhã, o hoje se consome como vela acesa. Enquanto nos agarramos ao ontem, o hoje já passou.

É claro que planejar faz sentido. Quem cuida da saúde agora colhe bem-estar amanhã. Quem estuda hoje prepara o ofício de depois. Quem cultiva laços no presente encontrará companhia mais tarde. A vida também é investimento: cada gesto de hoje esboça o contorno de amanhã. Mas esse desenho só ganha forma se o lápis estiver em movimento — agora.

Essa dança se repete em tudo. Quando um casal renova votos, faz do presente um gesto de futuro com raízes no passado. Quando a família se reúne no Natal, celebra o ontem, vive o hoje e semeia a esperança de outros encontros. Estamos sempre nesse vaivém: memória, instante, expectativa.

A vida é também frágil. As flores da infância não duram para sempre. O vigor da juventude cede ao passo mais lento. Os pais que um dia nos carregaram ao colo, um dia, se apoiarão em nossos braços para caminhar. Tudo muda — e é justamente nessa mudança que mora a beleza, e também a dor, de estar vivo.

Talvez a resposta esteja aí: a vida não é uma coisa só. É mistura de retrovisor e horizonte, de trilho e equilíbrio, de chegadas e despedidas. É o tempo que corre pelos rostos e pelos dias, pelas mãos que se encontram e depois se soltam.

E, no fim, talvez seja simples: a vida é o tempo que passa, a mudança inevitável das coisas e das pessoas que amamos. A vida é, simplesmente.

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