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“Não vou perseguir inimigos”: André Mendonça, o juiz indicado de Bolsonaro que apresentará parecer sobre Moraes e Toffoli, afirma que haverá imparcialidade no STF

“Imparcialidade é não privilegiar amigos e não perseguir inimigos”

Relator dos inquéritos que podem derrubar de ministros do STF até a presidentes, de Jair Bolsonaro (que recebeu milhões do grupo de Vorcaro em suas contas de campanha ), André Mendonça discursa sobre ética enquanto o tribunal que ele integra sangra por dentro. A mensagem é clara: ao contrário de seus colegas, ele não usa a toga para proteger aliados nem destruir adversários.

Em meio à maior crise de credibilidade da história recente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça, relator dos inquéritos que apuram as fraudes do Banco Master e os desvios no INSS, deu uma aula de moral que soou como uma saraivada de ferro nos seus próprios colegas de Corte.

“Imparcialidade é não privilegiar amigos e não perseguir inimigos”, afirmou Mendonça nesta segunda-feira (6/4), em cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). A frase, aparentemente óbvia em qualquer democracia que preste, é uma raridade no STF atual, onde ministros têm sido flagrados trocando favores com banqueiros, escondendo negócios suspeitos e agindo como chefes de milícia digital, não como juízes.

Mendonça não citou nomes. Não precisava.

No momento em que falava, dois de seus colegas, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, estavam na mira das investigações que ele próprio conduz. O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, fechou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa de Moraes. Toffoli, por sua vez, foi sócio de uma empresa que vendeu cotas de um resort a um fundo ligado a Vorcaro. A promessa de delação premiada do banqueiro, cuja homologação cabe exatamente a Mendonça, pode ser o martelo que enterra de vez a pretensão de pureza dos dois ministros.

“Eu vejo a imprensa falar: ‘porque ali tem uma proximidade religiosa, vai beneficiar A e prejudicar B’. Eu não tenho esse direito”, disse Mendonça. A declaração é um tiro certeiro na alma de um STF que construiu sua reputação recente exatamente sobre o oposto: perseguição política de adversários e blindagem corporativa de aliados.

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, estão na mira das investigações que Mendonça conduz – Imagem: Reprodução

O ministro ainda foi além. Em um recado direto ao Judiciário que ele mesmo integra, cobrou “prudência maior” nas relações com políticos e alertou que juízes precisam evitar “ações que comprometam de forma substancial, de forma voluntária, de forma consciente, a credibilidade que a sociedade espera de um bom magistrado”. Traduzindo sem eufemismo: parem de agir como deuses intocáveis enquanto se comportam como operadores de esquemas.

A ironia é feroz. Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, o homem que a corte atual tratou como inimigo número um. Hoje, é justamente o indicado do ex-capitão quem dá lição de imparcialidade enquanto os ministros “garantistas” da Lava Jato e os “combatentes da fake news” se enrolam em escândalos de corrupção privada.

A homenagem a Mendonça na Alesp reuniu o governador Tarcísio de Freitas, também apontado por ser beneficiado por pessoas ligadas a Vorcaro (recebeu R$3 milhões em doações de sua campanha para a prefeitura de São Paulo), o prefeito Ricardo Nunes e o presidente da Casa, André do Prado. Nunes foi direto: “Esses casos complexos estão em boas mãos. Não haverá perseguição, não haverá decisão fora da lei.”

A fala de Nunes é um epitáfio antecipado para a era de Moraes e Toffoli. Porque se há algo que o Brasil aprendeu nos últimos anos é que, quando um juiz diz que não vai perseguir inimigos, ele está denunciando, sem dizer uma palavra, que outros juízes o fazem.

E Mendonça, o evangélico, o bolsonarista, o “terrivelmente evangélico”, pode ser, no fim das contas, o único ministro do STF disposto a julgar com a lei, e não com a militância. Que o digam os que agora tremem na delação de Daniel Vorcaro.

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