Os que tentaram se vender como interlocutores da elite trumpista descobrem que Trump prefere negociar com quem fala a linguagem popular, mesmo que esse alguém seja Lula.

Jornal Clarín Brasil – JCB News – Brasil 23/09/2025
Durante anos, setores da pseudo-direita brasileira apostaram que Donald Trump seria seu avalista internacional, o líder que legitimaria suas cruzadas ideológicas e os elevaria ao status de protagonistas globais. Para isso, atacaram o Brasil, sabotaram políticas públicas e se venderam como interlocutores privilegiados do trumpismo. Mas essa aposta revela-se agora não apenas equivocada, mas profundamente medíocre.
A política internacional não se move por fidelidades ideológicas simplistas. Os discursos de Lula e Trump que aconteceram hoje na Assembléia Geral da ONU escancararam essa realidade, ficou claro que: ambos compartilham um pragmatismo nacionalista que ignora as ilusões de alinhamento ideológico. O que emerge é uma possibilidade real de aproximação entre os dois, uma aliança que desmoraliza os que tentaram agradar Trump atacando o Brasil e ameaça esvaziar a própria pseudo-direita brasileira por dentro.
Lula e Trump compartilham uma desconfiança profunda das estruturas multilaterais. Enquanto Lula denuncia o globalismo que perpetua desigualdades, Trump acusa essas mesmas instituições de prejudicar os EUA. Ambos rejeitam a ordem liberal internacional ,e os que bajularam Trump atacando o Brasil agora assistem, perplexos, ao líder que idolatravam estender a mão ao presidente que demonizaram.
Outra semelhança, é a de que ambos também defendem políticas protecionistas e o fortalecimento de suas respectivas indústrias nacionais. Lula quer reindustrializar o Brasil; Trump quer blindar os EUA, e també, reindustrializa-lo. Os autoproclamados defensores do livre mercado, em suas pequenez de mentes, agora se veem traídos por um Trump que negocia com Lula, ignorando completamente seus “representantes” brasileiros, título e auto-percepção distorcida, criada por eles mesmos.
E na retórica populista, Lula e Trump falam diretamente ao povo contra as elites. Os que tentaram se vender como interlocutores da elite trumpista descobrem que Trump prefere negociar com quem fala a linguagem popular, mesmo que esse alguém seja Lula.
A pseudo-direita brasileira, construída sobre o eixo liberal-conservador, enfrenta agora um dilema humilhante: ou critica Trump por se aproximar de Lula, ou aceita que seu ídolo está legitimando o governo que ela mais combate. Ambas as opções revelam a fragilidade de sua estratégia, e a mediocridade de suas pretensões internacionais.
Se Lula pode negociar com Trump, então ele não é o “comunista radical” que a pseudo-direita brasileira pintou. A guerra cultural perde força. A base conservadora, alimentada por fantasmas ideológicos, se vê diante de uma realidade onde o inimigo virou parceiro. E os que se promoveram atacando o Brasil em nome de Trump agora não têm mais narrativa.
A pseudo-direita brasileira se fragmenta: uns tentam justificar a aproximação, outros se revoltam contra ela, e o centrão corre para se alinhar ao governo. Os que se iludiram achando que seriam prestigiados por Trump ao atacar o Brasil descobrem que foram ignorados, descartados e superados por uma lógica de mercado demasiadamente complexa para mentes puerís.
A possível aproximação entre os dois figurões não seria ideológica nem militar, mas pragmática. E devastadora para a oposição, pois envolvem:
Acordos Comerciais Setoriais: Trump poderia negociar com Lula a importação de etanol ou commodities, em troca de acesso preferencial a mercados americanos. Lula ganharia uma vitória econômica; Trump garantiria suprimentos. A pseudo-direita do Brasil teria que se opor a um acordo que gera empregos e divisas?
Alinhamento Geopolítico Pontual: Em fóruns como a ONU, Brasil e EUA poderiam convergir em temas como sanções e soberania. Lula ganharia o selo de estadista pragmático e a direita perderia o monopólio da interlocução com o mundo conservador.
Legitimação Mútua: Um aperto de mãos, uma reunião cordial, um elogio público. Lula usaria isso como prova de que até Trump o respeita. A imagem do diálogo desmontaria a retórica do confronto e os que apostaram tudo na demonização de Lula seriam vistos como radicais desequilibrados.
O “Estranho Abraço” é um alerta vermelho. Ele mostra que o mundo não se divide mais entre esquerda e direita, mas entre globalismo e soberanismo, entre liberalismo e populismo. Alianças contra-intuitivas são não apenas possíveis, são prováveis.
A pseudo-direita brasileira precisa urgentemente se reinventar, e se precisraem de uma cartilha, eis algumas dicas:
Desenvolver uma Agenda Proprietária: Propostas reais, que sobrevivam mesmo quando o inimigo vira parceiro.
Separar Princípios de Personalidades: Fidelidade a ideias, não a ídolos. O livre mercado não pode ser abandonado só porque Trump prefere protecionismo.
Antecipar-se ao Jogo: Criticar o pragmatismo oportunista antes que ele se torne consenso. Mostrar seus riscos de longo prazo para a democracia e a economia.
O possível conchavo entre Lula e Trump não se daria por afinidade ideológica, mas por pragmatismo estratégico, e é justamente esse pragmatismo que representa o golpe mais duro contra a pseudo-direita brasileira. Não se trata de uma aliança formal, mas de gestos e acordos pontuais que, somados, teriam um efeito devastador sobre a narrativa da oposição.
Um governo Trump, em relações diplomaticas e comerciais saudáveis, poderia buscar acordos bilaterais com o Brasil para importar etanol, soja, minério de ferro ou petróleo, garantindo segurança energética e alimentar para os EUA. Em troca, Lula negociaria acesso preferencial a mercados americanos para produtos manufaturados brasileiros ou isenções tarifárias. Seria uma vitória econômica concreta para o Brasil, e um vexame para a pseudo-direita brasileira, que teria que escolher entre criticar um acordo que geram os necessários empregos e divisas ou engolir a própria retórica. Os que se diziam defensores do Brasil revelariam-se, na prática, sabotadores do progresso nacional.
Em saudável pareceria e respeitoso alinhamento, nesses fóruns como a ONU, Brasil e EUA poderiam convergir em temas como soberania nacional, rejeição a sanções unilaterais ou ceticismo sobre intervenções humanitárias. O presidente Lula, antes pintado como radical, ganharia o selo de moderado e pragmático. E os que se promoveram como “guardiões da democracia ocidental” seriam deixados falando sozinhos, ignorados por Donald Trump, que preferiria negociar diretamente com o governo brasileiro, já que, até o momento suas fontes se mostram rôtas.
Bastaria um aperto de mãos firme, uma reunião cordial, um elogio público. Lula usaria isso como prova de que até o momentâneo maior ícone da direita mundial o respeita. A imagem do diálogo desmontaria a retórica do confronto. E os que apostaram tudo na demonização de Lula seriam vistos como radicais incapazes de compreender a realpolitik, ou a profundidade da coisa em questão. A oposição perderia o monopólio da interlocução com o mundo conservador, e com isso, perderia também sua razão de ser.
O “Estranho Abraço” é mais do que uma hipótese: é um teste de maturidade política. Ele revela que a política internacional se move por interesses, não por fidelidades ideológicas. E os que acreditaram que atacar o Brasil os tornaria aliados de Trump agora descobrem que foram ignorados, descartados e superados por um pragmatismo que nunca os considerou relevantes.
A sobrevivência da pseudo-direita brasileira exige um recalibramento estratégico urgente:
Se não fizer isso, a pseudo-direita brasileira não será derrotada em combate, será tornada irrelevante por um jogo de realpolitik para o qual nunca se preparou. E os que pensaram que, ao atacar o Brasil, ganhariam prestígio junto a Trump, terão que assistir, impotentes, ao presidente que idolatravam dar as mãos ao líder que mais combateram e odiaram.
Por fim, aqueles que acreditaram que atacar o Brasil os tornaria aliados de Donald Trump (que na verdade não é amigo de ninguém), revelaram uma compreensão rasa da política internacional. A aproximação Lula-Trump não apenas desmascara essa ingenuidade, ela a transforma em humilhação pública.
A pseudo-direita brasileira, se não se adaptar, corre o risco de não ser derrotada, mas, sim, tornada irrelevante e extinta do cenário político do Brasil.

Nilson Apollo Belmiro Santos é analista político, ensaísta e pesquisador em geopolítica contemporânea. Nascido em Belo Horizonte capital de Minas Gerais, ele divide seu tempo entre sua cidade natal, e Vila Velha no Espirito Santo, onde desempenha atividades laborativas e comerciais, além de escrever com foco nas dinâmicas entre potências emergentes e estruturas de poder local e global. Seus textos são comparados aos textos de Noam Chomsky e outros ácidos e precisos intelectuais que exploram os bastidores da diplomacia internacional, os conflitos narrativos da mídia e os impactos econômicos da multipolaridade. Com estilo crítico e linguagem precisa, Santos tem se destacado por suas colunas que conectam o tabuleiro geopolítico às decisões locais
As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Clarín Brasil – JCB News, sendo elas de inteira responsabilidade e posicionamento dos autores.






