Brasil Cultura/Lazer Mercados/Negócios

Dia do Sexo – Por Paulo Siuves

Criaram até um dia para ele, 6 de setembro, homenagem à posição 69

Dia do Sexo

Paulo Siuves

Todo mundo transa. Já transou, vai transar, ou ao menos sonhou com isso. O resto é fachada. Pose de pureza. Moral de vitrine. O sexo está no café da manhã de quem acorda atrasado depois de uma noite longa, no sussurro do casal que divide o metrô, na lembrança escondida de quem um dia amou e não esqueceu. Está na vida de todos nós, mesmo quando não é dito em voz alta.

O curioso é que, mesmo tão universal, ele ainda carrega a roupa plumbífera do segredo. Criaram até um dia para ele, 6 de setembro, homenagem à posição 69. A data foi escolhida porque os números lembram a forma de dois corpos encaixados em prazer mútuo. Um gesto de igualdade. De troca. Parece piada de adolescente, mas, se pensarmos bem, é uma oportunidade de ouro: lembrar que sexo não é apenas carne. É conversa. É responsabilidade. É corpo que encontra outro corpo com respeito.

No Brasil, ainda tropeçamos nesse assunto. Fingimos que não acontece, como se nossos filhos fossem aprender sozinhos a distinguir prazer com abuso, carinho com imposição, amor com manipulação e violência disfarçada de intimidade. É nesse ponto que se alimenta a cultura do estupro, quando se confunde desejo e consentimento, quando sexo é imposto, ou assumido como dever. Deixamos a internet ensinar. E ela, como sabemos, não costuma ser uma professora efetivamente eficiente.

Enquanto isso, seguimos com contradições curiosas: vendemos cerveja usando corpos seminus, mas nos envergonhamos de falar de camisinha; fazemos piadas sobre posições, mas desviamos os olhos quando alguém menciona consentimento; enchemos a boca para falar em família, mas esquecemos que sexualidade saudável também é parte da vida familiar.

E aqui está a ferida: não é o sexo em si que incomoda. É a liberdade de falar sobre ele sem pedir licença. Porque liberdade sexual ameaça estruturas. Chacoalha o moralismo de fachada. Desmascara quem controla corpos alheios enquanto esconde seus próprios desejos. É mais fácil demonizar o prazer dos outros do que encarar a própria hipocrisia.

O resultado é um país que convive com números alarmantes de gravidez precoce e de violência sexual, mas que ainda torce o nariz quando se fala em educação sexual nas escolas. Um país que prefere “proteger a inocência” das crianças negando informação, como se ignorância fosse proteção. Pagamos caro por essa covardia coletiva.

O sexo, quando consentido, vivido de igual para igual, é celebração. É saúde. É cura de um dia ruim. É reencontro consigo mesmo e com o outro. Não precisa de data para existir, mas já que inventaram, que sirva de lembrete: ninguém é menos digno por desejar. Ninguém é menor por buscar prazer.

Entre o riso das piadas fáceis e o silêncio dos tabus, talvez seja hora de aprender a falar dele como falamos de política, de trabalho, de comida. Afinal, sexo é tão trivial quanto respirar, e tão grandioso quanto amar.

E se, neste Dia do Sexo, em vez de rir de um número, a gente perguntasse: quantas vezes já usamos o corpo do outro sem perguntar se era isso que ele queria? Quantas vezes silenciamos desejos por vergonha? Quantas vezes confundimos prazer com poder? Que país é esse que prefere uma gravidez precoce a uma aula de educação sexual? O que fazemos, afinal, com o desejo que carregamos? Como tratamos o corpo do outro, como brinquedo, como inimigo, ou como parceiro? O que estamos ensinando às próximas gerações: medo, vergonha ou cuidado?

E se o desejo que nos atravessa não fosse mais engolido em silêncio, mas aprendido em partilha? Tocamos o corpo do outro com pressa, com medo, ou com a delicadeza de quem encontra poesia na pele? Todo mundo transa, mas só alguns têm o privilégio de viver isso com segurança, respeito e prazer. O resto fica perdido entre violência, ignorância e hipocrisia. O Dia do Sexo, se serve para alguma coisa, é para esfregar essa verdade na nossa cara.

Porque sexo, afinal, não é só trivialidade. É escolha. É responsabilidade. É poesia escrita a dois. Só quando aprendermos a falar disso com honestidade, com consciência e com respeito, poderemos, enfim, escrever um poema a quatro mãos.

Curta,compartilhe e siga-nos:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *